sábado, 13 de dezembro de 2014

Lançamento do mês.

 HERÓIS DA RESISTÊNCIA
Por Thiago Gonzaga*


Recentemente, um verdadeiro quinteto fantástico das letras potiguares, formado por Afonso Martins, Carlos Astral, João da Rua, Jota Medeiros e Novenil Barros, se reuniu para relançar, pelo Sebo Vermelho Edições, de Abimael Silva, (que pode, com certeza, ser chamado de o sexto fantástico dessa turma), mais uma importante contribuição para a literatura do Estado: Delírio Urbano, jornal literário que circulou em Natal  nos meados dos anos 80 e que teve três edições.
 Delírio Urbano (republicado em novembro de 2014) é um trabalho graficamente suntuoso, riquíssimo inclusive em imagens, uma valiosa amostra de como foram e o que criaram alguns periódicos literários marginais em meados dos anos 80 no  Rio Grande do Norte, marginais, digamos assim, por terem ficado fora dos circuitos literários “oficiais”. Conhecidos também como literatura alternativa (Jota Medeiros lançou em 1997, uma importante obra com grande parte de quem publicou poesia marginal no Rio Grande do Norte nos anos 70/80).
Dando continuidade ao trabalho da geração literária potiguar do final dos anos 70, essa literatura  reapareceu, ou melhor, continuou, de forma, alternativa, devendo-se essa alcunha a diversas características como a falta de um compromisso comercial, a liberdade de temas, de expressão.  Foi uma opção inteligente face à literatura oficial, digamos assim. Em Natal, nos anos 80, atuou intensamente uma geração engajada, que pregou a pluralidade e massificação da literatura-cultura-música, através dos meios de comunicação criados, ou aperfeiçoados por eles próprios, mesmo que de forma carente, esteticamente falando, ou precários, pela falta de recursos financeiros. O Delírio Urbano foi um que se destacou.
Os fanzines, ou pequenos jornais literários, de uma maneira  geral,  ganharam bastante destaque desde os anos 80, o tal fenômeno, não é exclusividade da literatura potiguar, porém, prova, mais uma vez, a nossa sintonia literária, pois surgiram publicações dessa natureza concomitantemente em várias outras cidades.  Ao contrario do que aconteceu nos anos 70, quando existiu o problema da censura, elas tiveram liberdade para criar, ousar, de todas as formas e maneiras, quebrando paradigmas e tabus, fazendo experimentações literárias, e eram  em sua grande maioria editadas de   forma artesanal e tendo  distribuição  entre amigos, simpatizantes,  divulgadas boca a boca.
No Rio Grande do Norte, é incrível a  quantidade de pequenas publicações literárias, ( um capitulo do livro relaciona uma infinidade de títulos da época), numa verdadeira explosão que poderia ser admitida como forma de resistência alternativa, de gritar ao mundo a sua existência.  Na grande maioria, foram editadas por jovens, poetas, sonhadores,  sem nenhum apelo comercial, muitas foram criadas de maneira fugaz, ficando apenas na primeira edição. Porém, é importante dizer que, cada vez que  se esvaecia uma  publicações  dessas, surgiam outras no universo cultural local.
Falando mais especificamente sobreo o Delírio Urbano, este livro desempenhou papel importante, pois além de ter revelado vários nomes da nossa literatura,  fez circular uma produção literária  também de qualidade.  Valer frisar  também que, na medida em que esse tipo de divulgação literária ganhava notoriedade, surgiam alguns jornais literários históricos, no Estado, como O Galo, por exemplo.
Delírio Urbano resgata bons valores da literatura alternativa dos anos 80, em solo potiguar, valendo, igualmente, como um significativo instrumento de resistência cultural. Também pode ser caracterizado por sua linguagem ousada, experimentações poéticas, o coloquial, o caráter literário sem postura ideológica mais destacada. Seu intuito era divulgar literatura e cultura, mas havia também grafismos, desenhos, que eram valorizados,   alguns também com viés  mais anarquista .
Nas décadas de 70/80, a literatura  marginal potiguar começou a contestar com mais nitidez  demandas de transformações sociais  que aconteciam no Brasil e no mundo, demostrando definitivamente que a nossa literatura estava atenta a tudo que acontecia lá fora. Parabéns a todos que colaboraram para o ressurgimento desse belo trabalho.

*Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.
LANÇAMENTO

Por Thiago Gonzaga*


Em um período extremamente rico e diversificado de publicações, o ano literário praticamente termina com chave de ouro. A obra “Quase Conto” da escritora Josimey Costa, publicado pela EDUFRN, é um bom trabalho de ficção, com histórias envolventes, em textos curtos, que transitam entre os campos do conto, da poesia e da crônica.  “Quase Conto”, cria um universo de acontecimentos e situações cotidianas num estilo moderno de narrativa. Uma forte marca do conto de Josimey Costa é sua pequena extensão, outra, é a capacidade de tocar o leitor, que se identifica com varias situações narradas no livro.  “Quase Conto” tem uma composição unida, bem estruturada, desenvolve, ou melhor, constrói histórias com tramas e algumas características psicológicas. O conto de Josimey , está muito próximo daquilo que o escritor argentino Júlio Cortazar, definiu  como, “aquele texto que corre em poucas linhas e em alta velocidade narrativa, capaz de nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado”.
O conto é um dos tipos de textos mais versáteis da literatura, e tem ganhado bastante espaço no Estado desde meados dos anos 60, quando foi publicada a primeira coletânea de contistas potiguares. Na atualidade, um número quase incontável de escritores locais se aventura neste gênero. Através dos contos de Josimey Costa pode-se verificar a própria evolução do conto potiguar, em sintonia com o conto brasileiro contemporâneo.
“ Quase Conto” é um livro que vale a pena ter em nossa estante.

* Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

Artigo

DISSONANTES POEMAS

*Chumbo Pinheiro



Uma boa leitura sempre nos provoca intelectualmente. Leva-nos a reflexão, a motivação e atitudes; pode ser desconcertante e mudar a nossa ótica do mundo; da vida, do cotidiano, dos negócios, do trabalho, das amizades; quebra e desconstrói tudo aquilo que está ao nosso redor, afasta-nos de velhos hábitos e modelos, aproxima-nos de novos conceitos, renova-nos, e atualiza-nos.
A poesia e os poetas muitas vezes chegam onde ninguém consegue chegar. Invadem e transcendem a mente e tornam possíveis os seus devaneios e divagações e levam o leitor a essas dimensões do pensamento antes nunca exploradas quebrando paradigmas.
Na história da literatura a poesia é um dos espaços onde a criação alça os maiores voos sempre em busca da liberdade. Rimbaud, Byron, Ginsberg e tantos outros escreveram seus nomes com seus talentos inovadores e sua ousadia. Alvares de Azevedo, Castro Alves, Auta de Souza em sua juventude deixaram muito mais que importantes contribuições; são valiosas, pelo estilo, força, representatividade; muito mais que a imaturidade de suas vidas cronológicas, traz a impetuosidade de suas emoções e desejos por experimentações e inventividade além da eloquência não só sentimental, mas também social.
Leonam Cunha, poeta potiguar que, em seu Gênese – o primeiro livro do autor – afirmou que “Apenas o poeta/que não mais tem receio do fim/ seria de todo livre.”, traz-nos o seu mais novo fruto. E se ao iniciar-se como poeta enxergava a liberdade, agora ele a experimenta sem receio. Lança-se à metalinguagem, “... aliás, é um alvo de sua poética, na qual se notam laivos de Castro Alves e Rimbaud –” (Angélica Torres Lima – prefácio de Dissonante). A liberdade criativa do jovem vate é “SEM CERIMÔNIA – As portas minhas não têm tramelas/não precisam de ordem judicial”, ainda assim, não faz de sua liberdade uma vã aventura, vive-a em função do conhecimento e domínio de si e não se perde em sua verve; transforma mandíbulas em versos com seu poema MASTIGAÇÃO; passeia suave com o soneto ao lado de Walflan e entoa seu canto KAFKIANO: “Eu quero o violino/mais penoso/para me pender ao meio/e me desformar”. E o faz com os versos de II EPITALÂMIOS PROFANADOS (Endeusamento a esbórnia) – “Quero o avesso/quero a derrocada/do costume do tirano/que impede que todos gozemos/juntos, sem altar, perto do mar.”, pois ainda que juntos, estamos sempre sentindo que nos falta algo, e queremos mais e mais até “Ter as gentes em meu ser incompleto/cosendo salientes rabiscos na História.”.
Essa incompletude humana incansável e insaciável que nem a ciência, nem a crença nos mistérios divinos conseguem preencher, exprime-a a poesia. Expressa-a Leonam. Assim, não é a idade, pois, que faz o poeta; é a palavra lançada como som, dissonante, a inquietar os corações e as mentes dos homens em qualquer tempo e lugar, a quebrar regras e desconstruir mundos egocêntricos, maçantes, entediantes e reinventar os olhares sobre a vida, a natureza e os próprios homens.

*Chumbo Pinheiro é articulista, autor de "Alguns Livros Potiguares".
LANÇAMENTO

Por Thiago Gonzaga*


Entre os variados gêneros literários que fazem sucesso de público no Brasil, a crônica com certeza tem lugar cativo. De alcance extenso, a crônica nunca sai de cena e tem como marca a informalidade, estabelecendo um diálogo direto com os leitores. Ressaltamos que, uma de suas qualidades é a forma como ela estimula o exercício de um olhar mais apurado sobre o presente, uma ligação com os acontecimentos do cotidiano, tornando-se muito pertinente e dinâmica em sua mensagem.
  Acabo de ler de “Uma Garça no Asfalto”, livro de crônicas bastante promissor, ou melhor,  que tem todos os ingredientes  de um bom livro do gênero. Este é o quarto trabalho do escritor mossoronse Clauder Arcanjo, sendo o primeiro de crónicas, que por sinal, há muito ele devia à literatura potiguar. Nos textos, o autor evoca lugares, personagens, e traça retratos do cotidiano. Clauder começa de forma primorosa, agarrando o leitor logo de cara, com a primeira crônica: “Tributo a uma mãe desconhecida”, um bom exemplo da intensidade dramática de alguns textos que irão confundir realidade com ficção num eficaz artifício literário. Outras crônicas  nos surpreendem  pelo relato de fatos cotidianos, com muita concisão, sensibilidade e poesia. Basta lermos  “Carta ao meu pai”, “Carta a um amigo”, e “Crônica da melancolia” , nas quais as palavras parecem catadas para formar cada frase, e construir uma comovente história. O autor também carrega  alegria e arranca-nos sorrisos em textos como “Lição de coelho”,” Meu Bem-te-vi e “O Rei David do subúrbio”.
Clauder Arcanjo consegue motivar o leitor para que ele experimente da melhor forma possível os textos atemporais de “Uma Garça no Asfalto”. Nas 55 crônicas há um pouco de quase tudo: vivências, situações, questionamentos, sentimentos, comportamentos sociais, humor. A crônica de Clauder Arcanjo é muito significativa até mesmo por não possuir limites temáticos.  

A literatura brasileira agradece.


 *Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

LANÇAMENTO

Por Thiago Gonzaga*  



A Editora Sarau das Letras, que completa dez anos de atividades em 2015, publicou recentemente o livro “Pétalas”, da poetisa mossoroense Florina da Escóssia.  A obra é principalmente caracterizada pela idealização de um cenário local, familiar, de amor e saudades, contrastando em alguns versos com o corre-corre, a agitação da vida nos grandes centros urbanos. Os poemas de “Pétalas” estão bem próximos do que poderíamos designar de bucolistas, modalidade que enuncia um ideal de existência, que canta as belezas da vida, a ingenuidade dos costumes, o cotidiano tranquilo e o  contato com a natureza. Tratam também dos amores, saudades e alegrias que contrastam com os sobressaltos e inquietações da vida urbana. Todo o cenário poético pressupõe a descrição de uma utopia passada. Esta idealização  nos leva a pensar que  a vida agreste seja associada a um passado, nos poemas de forma nostálgica, altura em que o homem vivia em harmonia com o mundo, com a natureza. Em “Pétalas” o fazer poético adota roupagens corriqueiras, há certa nostalgia e amor pela terra de nascimento, alguns versos parecem confissões pessoais, o eu lírico narra situações platônicas, lembrando em algumas passagens a poesia romântica. O trabalho possui texto Aluísio Barros de Oliveira  na orelha, e prefácio de David de Medeiros Leite. O gênero ainda continua sendo um dos mais publicados em solo potiguar.


*Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Artigo.


O banquete literário de Anchieta Fernandes*




Em consequência da grande safra de livros e escritores que tem surgido nesse início de novo século, no Rio Grande do Norte, com certeza impõe-se a necessidade de novos trabalhos na área da crítica literária. Nos últimos meses fomos abastecidos de forma muito significativa, em tal área, para por fim o mito de que não tínhamos critica. Os livros “Uns Potiguares”, de Nelson Patriota, “Salvados”, de Manoel Onofre Jr., em terceira edição revista e ampliada e “Alguns Livros Potiguares” de Chumbo Pinheiro são obras com essa característica e que têm dado uma boa contribuição para melhor conhecimento dos nossos escritores, sobretudo os contemporâneos.
O escritor Anchieta Fernandes acaba de publicar pelo Sebo Vermelho Edições, outro livro riquíssimo, verdadeiro banquete de informações sobre livros e autores potiguares, “Literatura RN – Livros Selecionados”, uma coletânea de textos publicados pelo autor nos anos 90.
Nos últimos anos, Anchieta Fernandes é um dos escritores do Rio Grande do Norte, ao lado de Diva Cunha, Tarcísio Gurgel e Manoel Onofre Jr., que mais têm contribuído para valorização e divulgação da nossa literatura. A sua coluna “Literatura RN – Livros Selecionados”, que dá titulo ao livro, no Jornalzinho do Sebo Vermelho, foi de grande relevância para promover e divulgar a produção literária local nos anos 90.
As resenhas de Anchieta Fernandes são estruturalmente bem elaboradas, constituídas e alicerçadas no profundo conhecimento que ele tem de literatura e cultura potiguar. É evidente a boa intenção do autor em valorizar o que é nosso, o que é da terra. Em muitas dessas resenhas, Anchieta faz enfoques críticos assaz felizes, como por exemplo, do livro “Os Brutos” de José Bezerra Gomes, “Geração dos Maus” de José Humberto Dutra, “Inventario” de Myriam Coeli, “Quarteirão da Fome” de Raimundo Nonato, “Crônica da Banalidade” de Carlos de Souza. Em outras percebemos, algumas inclinações  pessoais do autor, por exemplo, como quando ele fala da obra “Ficcionistas Potiguares” de Manoel Onofre Jr., parece não  gostar de, não haver sido incluído  nesta obra como ficcionista.  Observa-se ainda, em uma ou duas resenhas, certo apadrinhamento ao escritor resenhado. Mas isto em nada as compromete, afinal a critica literária também  reflete o gosto pessoal de quem escreve.
È preciso ressaltar que o livro de Anchieta  não é uma antologia, mas sim uma espécie de panorama do que foi produzido em nossa cena literária  em meados ou no final do século passado. Salienta-se ainda  que ele foi muito feliz na seleção dos livros para comentar, pois todos, inclusive com fotos das capas, contribuíram de alguma forma para a nossa afirmação literária, e até para a literatura nacional, como “O Livro de Poemas  de Jorge Fernandes” e o trabalho dos poetas do poema-processo que estão quase  todos, individualmente, resenhados no livro - Moacy Cirne, Dailor Varela  Nei Leandro de Castro, etc.
Câmara Cascudo é justamente lembrado em excelentes resenhas sobre o “Dicionário do Folclore Brasileiro”, “História da Cidade do Natal” e “Canto de Muro”. Obras clássicas de Zila Mamede, Eulicio Farias de Lacerda, Homero Homem e Newton Navarro também são anotadas de forma bastante consistente e deixam um legado importantíssimo para  a literatura potiguar sem duvida alguma.
No futuro os estudantes e pesquisadores terão uma grande fonte de informações. Um livro indispensável para quem deseja conhecer um tanto da nossa cultura e história literária. Anchieta Fernandes, mais uma vez, contribui para as nossas letras de forma valorosa.

*Thiago Gonzaga , pesquisador da literatura potiguar.