quinta-feira, 26 de março de 2015

Artigo.




Um livro de palavras vivas. 

Por Chumbo Pinheiro *

A poesia potiguar alçou durante o dia 14 de março de 2015 mais um grande um voo. Em várias partes do estado foi celebrada com encontros entre poetas, debates, publicações, saraus e muitos outros eventos. Tornamo-nos uma referência nacional na celebração do dia da poesia.  Isso é possível sem dúvidas dado a produção marcada pelo vanguardismo e pelo crescente número de publicações do mais alto nível. Entre estas publicações está o mais novo livro do poeta João Andrade. Um nome que vem fazendo história na literatura norte rio-grandense e certamente um dos poetas contemporâneos que ficam lado-a-lado com outros nomes importantes da produção local.
O novo trabalho de João Andrade é um livro ricamente elaborado. Externa técnica e arte em uma articulação minuciosa e caprichosamente produzida, com perspicácia e muito talento ao escolher as palavras, transmutá-las, dar-lhes sentidos e significados que só a imaginação do poeta pode alcançar. Em sua poesia as palavras parecem vivas e em luta. A palavra não se oferece, ela é arrancada do peito. Ela, a palavra, rejeita o poema, e o poeta a transforma em poesia.  Ela se faz poesia, e o poeta a rejeita, não lhe serve, e poetisa: “Não faço versos/os versos em mim, vão se fazendo” (Não tenho estilo).
São versos afiados feitos com a lâmina das palavras, como declara João Andrade: “Dentro de mim, não há norma contra a forma/Não há regra contra a arte, não há lei contra o normal/Não há credo contra o pecado, não há nada contra o tudo/Mudo, escrevo meus versos com punhal.”
Mas esta relação não é somente de luta entre o seu eu-poético e a palavra. É mais do que isso, é uma relação de cumplicidade e parece se evidenciar em “Esta mania – Esta mania que tenho de ser eu/só me traz problema./Quando todos esperam muito,/ paro para fazer poema.” Esse encontro afirma o poeta é para a vida inteira, que revela na última estrofe deste poema: “Palavrei a vida inteira para na hora certa,/na hora derradeira ao cruzar a fronteira,/ter a ilusão que amei, que me amei,/que me espalhei na brisa, sonhei e fui poeta.” João Andrade cumpre uma trajetória segura para chegar à redação da sua poesia e utiliza de forma brilhante os recursos da literatura. Sensível às agruras do viver humano transforma dor em passarinho com Mário Quintana, isso logo no poema que abre o livro: Há dor – Há dor que nos retorce/como um titânico e perfurante espinho/há quem a transforme em pesadelo,/eu, quintanamente, em passarinho.” Sua imaginação é pulsante e viva a cada verso e expõe exemplarmente seu conhecimento do mundo dos poetas.                 
João Andrade é poeta. Fez-se poeta, burilou as palavras. Dialoga com grandes poetas como João Cabral, Carlos Drummond, Mário Quintana, Paulo Leminski, Augusto dos Anjos e com eles constrói novos caminhos poéticos, entre abismos, entre ruas, entre becos, diante do espelho, diante do tudo e do nada, na intimidade ou nas estranhas do homem.
Ao ler o Livro de Palavra, o leitor será capturado pelas sensações humanas, as quais o vate sensivelmente identificou e se inquietará com a sua inquietude, com a transformação da dor em poesia deixando que ela, a poesia, já não faça em seu peito silêncio, mas cante e quem sabe encante a vida, pois para ser feliz não precisa ser inteiro, para ser feliz é preciso menos que a metade como diz o poeta: “O amor me livrou da solidão,/deu-a me a felicidade,/e eu, que apesar da dor era um,/hoje não sou nem metade.” Então, meu caro leitor amigo, seja feliz.

*Luís Pereira da Silva que assina com o pseudônimo de Chumbo Pinheiro, é poeta e articulista. Autor  de "Alguns livros Potiguares", e coautor de "Nei Leandro de Castro - 50 Anos de Atividades Literárias". Escreve mensalmente para o blog 101 livros do RN.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Livro do mês.


Uma coletânea pioneira*



O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios,
tão indispensável como a poesia.
ANAÏS NIN


O erotismo está associado à sociedade e à cultura desde o início dos tempos, e na literatura, nas artes de maneira geral, não é uma exceção, embora muitas vezes submetido à censura. São frequentes referências à sensualidade ou passagens eróticas em várias obras ao longo do tempo, às vezes não como o tema principal, mas como capítulos isolados que contribuem para a evolução da história ou o desenvolvimento de um personagem. Num exemplo recente temos  “A casa dos budas ditosos”  de João Ubaldo Ribeiro:  obra, que representa o pecado da luxúria, é narrada por uma velhinha que beira os 70 e que conta, sem pudores, suas memórias libertinas. Poderíamos citar outros trabalhos como, por exemplo, os de Anais Nin, Henry Miller e DH Lawrence.

A literatura erótica é uma vertente que utiliza o erotismo como tema em sua maior parte no conto ou no romance, embora seja encontrada também na poesia. Cultuada mundo afora, essa vertente é pouco expressiva no Rio Grande do Norte,  em se tratando de ficção. Mas, agora podemos comemorar um passo importante da nossa cultura literária. Foi publicada recentemente a primeira reunião de contos eróticos de autores potiguares. Organizada pelo editor e escritor José Correia Neto, a coletânea traz ilustrações do artista plástico José Clewton do Nascimento. “Entre Dedos...” prova mais uma vez a sintonia literária potiguar, e seu valor estético, em relação ao que tem sido produzido em outras capitais, com bons autores e que possuem sensibilidade artística para tratar de um tema difícil, o erótico na literatura.

Editada pela Caravela Selo Cultural, a coletânea ficou um trabalho graficamente perfeito, digno de figurar nas prateleiras de qualquer livraria do mundo. A obra foi muito bem produzida e organizada, e merece todos os confetes, pois entra, inclusive, para a nossa história literária como a primeira desse tipo no Estado. "Entre dedos..." tem a participação de escritores experientes, dentre eles, João Andrade, Cefas Carvalho, Jeanne Araújo, Jania Souza, Maria Marcela Freire, Maria Maria Gomes e Sheyla Azevedo.

Algum leitor mais atento irá notar a ausência de escritores potiguares pioneiros no trato da temática tais como Nei Leandro de Castro, Newton Navarro e Francisco Sobreira.    Mas, pelo que observamos, o organizador preferiu enfocar apenas nomes da nova geração.

Nos contos selecionados tanto do erotismo masculino como do feminino,  relatos e fantasias são ingredientes indispensáveis  que instigam a imaginação do leitor a mexer com a audição, o olfato, o tato e a visão, mesmo sem a presença física de um dado estímulo. É que as fantasias ligadas à sensualidade e ao erotismo têm o potencial de aumentar o nível de interesse pela leitura.

Evidente o esmero da editora e dos seus participantes, que realizaram um bonito trabalho. Em suma, “Entre Dedos...” se serve da descrição detalhista da aventura erótica como pretexto para  o derramar-se da mais fina literatura.





*Thiago Gonzaga é mestrando em literatura potiguar contemporânea na UFRN.










quarta-feira, 11 de março de 2015

Dica de leitura.



A Poesia Potiguar na Virada do Milênio*


A poesia não quer adeptos, quer amantes.
Federico García Lorca


Bastante interessante e válido o trabalho organizado pelo poeta areia-branquense Anchieta Rolim, “Poemas de Amigos”. Publicado recentemente em formato digital, traz uma boa seleção de poemas de uma das melhores safras que o Rio Grande do Norte tem na atualidade, em se tratando de poetas.
Ler “Poemas de Amigos” me fez relembrar uma frase dita certa vez por Umberto Eco, que definiu o efeito poético como a capacidade que um texto oferece de continuar a gerar diferentes leituras, sem nunca se consumir de todo. Esta é a sensação causada pela leitura do trabalho, em que constam poemas de Anchella Monte, Jarbas Martins, Clauder Arcanjo, Marcos Silva, Jota Medeiros, François Silvestre, Mário Gerson, Lívio Oliveira, Shauara David e muitos outros, onde o signo verbal se transforma a cada nova leitura.
Os escritores aí reunidos parecem estar em sintonia quando intuito é deixar um belo trabalho para a posteridade. Mergulham na linguagem, imergem em lirismos, fazendo do poema um ser vivo, repleto de plurissignificações, de maneira que sempre será visto de uma nova forma, com uma nova leitura, se recriando , se renovando, fazendo aquilo que  o linguista Chomsky chamou de níveis de competência e  desempenho. Ou seja: o nível de competência refere-se ao nível de domínio técnico da linguagem, e o nível de desempenho é onde o falante cria em cima do nível de competência. O ato de criar e trazer novas formas poéticas é bastante trabalhado no livro. Não faltam criatividade e talento para tantos momentos de invenção e técnica.
Abaixo um bom momento de criatividade, onde o poeta trabalha a intertextualidade com o texto bíblico.


GÊNESE
(José Saddock)
Antes era o nada.
O nada, porém, solitário e vazio,
E percebendo que nada lhe antecedera
Como nada lhe sucederia,
Fez-se deus e senhor do nada.
E assim, do nada, disse: faça-se o princípio.
E assim se fez.
Vendo que a princípio tudo era bom,
Criou o relógio
(o engenho que do nada fez o tempo).
E fez-se tarde e manhã: primeiro dia.


Na obra, há alguns poemas mais sintéticos e outros despojados de expressão lírica; há também outros com bastante inspiração , expressão de sentimento e estados da alma.  Ainda outros abordam a nossa atual realidade; são poemas engajados, com característica social. Exemplo:


MENINO DO FAROL
(Camila Rodrigues)
Observando assim de longe,
Perecem mais vítimas que culpados.
Através do vidro embaçado,
Onde o calor não atinge o ego,
Desvairado destino incerto
Que antes de errar já foi condenado.
Menino franzino,
De olhar tristonho,
Vagando na rua como se num sonho,
Por pouco não foi atropelado.
Fica zanzando anestesiado
Reação causada pela substância ingerida,
Tentando esquecer as mazelas da vida,
O menino passa o dia lombrado.

Ao longo do livro aparecem muitos temas e ideias em ritmos variados, provando a multiplicidade e sintonia da nossa poesia com a brasileira de modo geral.  Esse trabalho é importante, também, por ser a primeira reunião de poetas potiguares desse inicio de século (a última reunião de poesia potiguar foi publicada em 1998 por Assis Brasil).
Da mesma maneira que não se pode compreender  a cultura portuguesa sem  Camões, a inglesa sem Shakespeare, a italiana sem Dante, a alemã sem Goethe, só se compreenderá melhor a literatura brasileira  quando se fizer o exato balanço  dos trabalhos regionais , incluindo trabalhos e leituras  dessa natureza.

Parabéns aos envolvidos no trabalho.



*Thiago Gonzaga é mestrando em literatura potiguar na UFRN.

Anote na sua agenda.