quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Um livro essencial *



“Admiro muito aqueles que dedicam suas vidas à arte,
mas admiro mais aqueles que dedicam sua arte à vida”
Augusto Boal

Certa vez, o cantor e compositor Raul Seixas disse em uma das suas canções que a arma dele era uma guitarra na mão. Ficou evidente que um dos nossos mais ilustres músicos usava sua arte também como instrumento de ação social. Ou seja, ele  era um artista engajado. Retomo esse assunto após ler o novo trabalho da jovem poetisa Drika Duarte, que demonstra uma preocupação com o social, numa causa engajada, mais especificamente a literatura afrodescendente.
Assim como em todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que  se origina. Não há escritor completamente indiferente à realidade, pois, de alguma forma, todos participam dos problemas da sociedade, e tratar do tema afro, sobretudo valorizando e resgatando seus aspectos culturais é extremamente relevante para preservação e valorização da cultura afrobrasileira, inclusive em solo potiguar.
Durante alguns séculos, a África cedeu parte de suas  populações para estabelecimento e manutenção de  grandes formações escravistas no novo mundo, sobretudo no Brasil. Para o Rio Grande do Norte também vieram escravos, ainda que em menor número. Apesar disto e do escravo negro africano ter-se transformado no verdadeiro sustentáculo de toda a sociedade brasileira até o final do século XIX, pouco se tem estudado, valorizado, até o presente, a história, a cultura e a literatura das formações sociais originárias da África.
A literatura brasileira, inclusive a potiguar, praticamente desconhece o negro  como elemento determinante. Não é de admirar tão pouca importância dada ao tema ao longo dos anos; só nas ultimas décadas tem surgido um maior interesse pelo estudo, pesquisa e divulgação da temática.
A necessidade de manter vivas as raízes afros  é de grande relevância  para a nossa cultura, inclusive para melhor compreensão do nosso passado. O escravo – nunca é demais repetir - foi um verdadeiro pilar da organização socio-econômica que regeu, por três séculos, a sociedade brasileira. Foi também o escravo o principal protagonista das lutas sociais que agitaram a colônia e o império. Por estas e outras razões, a cultura e a própria história do Brasil contêm profundas raízes no mundo africano.
Contrapondo-se à falta de tradição, pelo menos em solo potiguar, a poetisa Drika Duarte, apresenta uma obra, em que procura valorizar, resgatar valores, culturas e tradições afros. Desta forma, seu livro representa uma importante contribuição para divulgação e fortalecimento da cultura afro, fornecendo um diversificado e amplo painel. Em outras palavras, fica evidente que o instrumento de luta da poetisa é sua poesia.


**Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Artigo.




O fantástico mundo da escritora Carol Vasconcelos*


Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia.
E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.
William Shakespeare


Depois de ler “A Filha de Gaia” da escritora potiguar Carol Vasconcelos, volto a relembrar uma velha frase de Freud, segundo a qual os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência, A jovem ficcionista acabou de publicar seu mais novo livro, um romance onde os seres mágicos e o universo fantástico são personagens principais.
A obra começa de forma bastante interessante; no prólogo, nos deparamos, com uma espécie de carta aos humanos, questionadora e reflexiva, enviada pelo personagem Ellyllon. Nas páginas seguintes, acompanhamos a comovente história da jovem Aurora, que, com três anos de idade foi deixada na porta de um orfanato, e enquanto ia crescendo, observava  a destruição da natureza no mundo, o derretimento das geleiras, queimadas, devastação das florestas, inclusive a amazônica, propriedade dos Estados Unidos, em um futuro próximo.
Aurora  tinha características diferentes  das outras crianças, via coisas que as outras não podiam ver, pequeninas criaturas. Aurora cresce notando que não faz parte deste mundo, sentindo falta de alguma coisa, algum lugar, reconhecido apenas em seus sonhos. Certo dia, de céu cinza, pois  já não havia mais cor no planeta,  A jovem vai a uma biblioteca, e conversa com a nova bibliotecária,  e procurar entender o motivo porque  ela era a única a conhecer aquelas criaturas que apareciam em  seu mundo, e descobre então, ao ver as orelhas da bibliotecária, que não está sozinha. A partir daí, consegue algumas explicações. Arya, bibliotecária do orfanato, lhe diz que existem várias outras criaturas que os seres humanos não podem ver, mas ela, A Filha de Gaia, pode. Aurora é a criança vinda à terra para manter o equilíbrio e a ordem entre o planeta Terra e o Mundo da Magia.
A história fantástica e instigante continua pelo universo da fantasia, e o leitor mais atento vai observar que por trás de uma temática maravilhosa, também há um pretexto para engajamento, ou seja, a preocupação com a natureza, com  o bem-estar da  humanidade. A cada capitulo  o livro ganha criatividade e força, e conta com um final muito bem elaborado, onde o mundo dos humanos passa por uma reconstrução, tudo tendo como fonte a imaginação da escritora.
É notório que a literatura fantástica tornou-se, especialmente nas últimas décadas do século XX, e início do XXI, uma importante vertente da literatura, espécie de fenômeno mundial,  que tem atraído principalmente os jovens. No Rio Grande do Norte, não tinha muita visibilidade essa vertente literária, mas, nos últimos anos, vêm surgindo novos nomes. Apenas para citar uma turma jovem: Monalisa Silvério, Roniere Lopes, Rafael Marques, e a própria Carol Vasconcelos, que lançou em 2010 “Contos do Mundo Mágico”.
A obra de Carol Vasconcelos, está na chamada linha da Fantasia, gênero que usa a magia e outras características sobrenaturais como elementos principais do enredo, da temática e ou da construção da obra Os trabalhos nesta área variam amplamente, a partir da teoria estruturalista de Todorov, que enfatiza o fantástico como um espaço liminar para se trabalhar sobre as conexões históricas e literárias entre o medievalismo e a cultura popular. Por ser tão rico, o gênero literário invadiu também o cinema através de filmes que usam magia, elementos sobrenaturais e personagens fabulosos em seu contexto. “A Filha de Gaia” é mais uma prova de que estamos antenados com  o que  acontece no universo literário.

*Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

JUNIOR DALBERTO E SEUS POEMAS DE LEVEZA INFINITA*


 Com que combinações se faz um poema? Palavras, musicalidade, ritmo, assunto. No mais novo livro do escritor Junior Dalberto, “Leveza Infinita”, o autor nos oferece um convite a mergulharmos no que há de mais variado no universo poético, numa espécie de total experimentação.
Com  o seu eu lírico,  Dalberto concentra significados diversos: em cada palavra  um sentido novo , um peso, ou melhor, uma leveza especifica. Seus versos viajam no universo das expressões, e em alguns poemas lembram os concretistas (poesia de vanguarda experimental). O cotidiano se desconstrói e seus elementos transformam-se num novo sentimento a cada novo poema. O jogo de palavras e imagens é constante, há um prazer no dizer, no cantar, no versar do poeta, em uma síntese pontuada por cortes, experimentações, ousadia, sempre em busca de surpreender o leitor.
Eis um livro que vale a pena conferir, afinal só se conhece a poesia lendo poesia. Devemos ressaltar o  trabalho gráfico,  que o deixa leve, atrativo e agradável. Mais um bom lançamento da CJA Edições.

*Thiago Gonzaga,  pesquisador da literatura potiguar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Lançamento do mês.*



A hora e a vez de Leonam Cunha


Repetir para aprender, criar para renovar.
Ezra Pound


Se a geração poética potiguar dos anos 60 pode se orgulhar de ter revelado grandes poetas e um jovem supertalentoso, Sanderson Negreiros, que publicou O Ritmo da Busca em 1956, com menos de 18 anos, a nova geração pode se orgulhar de estar sendo bem representada pelo jovem poeta Leonam Cunha.
Lançando  sua segunda obra, (a primeira foi Gênese em 2013), Leonam Cunha se afirma com, propriedade e subjetividade, explodindo em versos, derramando no leitor um verdadeiro lago de heterogeneidade poética. Embora Leonam seja um poeta em formação, ele tem  o mérito de haver nascido poeta, inclusive, é poeta na própria maneira de viver e encarar a vida; portanto, a poesia pra ele não é profissão é vivência. Ele traz em seu segundo livro a experiência  adquirida com o primeiro, repetindo alguns aspectos, e recriando, renovando em outros , de modo que merece  louvores.
O que  também observarmos nessa  obra do poeta areia-branquense é a diversidade de temas, além do tratamento dado a assuntos antipoéticos, lembrando em alguns versos os  simbolistas, numa poesia com propriedades moderna, e pós-moderna, que mostram nossa sintonia literária com o restante do país.
Existe de tudo um pouco na poesia de Leonam, evidenciando que, acima de tudo, ele é leitor e dialoga com facilidade com outros autores, escolas literárias e temas universais.
Subjetividade e sugestão também fazem parte da poesia de Leonam Cunha. Outro item que merece ser destacado é a aliciação em algumas causas, deixando evidente que ele é um poeta atento aos acontecimentos, as mudanças e as discussões do mundo atual, e não fica ausente a temas polêmicos, caracterizando a sua poesia também como uma arte engajada.
Não nos restam dúvidas de que o jovem poeta está na vereda adequada do universo poético, e que é inegável um desenvolvimento, um amadurecimento em relação ao seu  primeiro trabalho. “Sel”,”Poemimpuro”,”Poema para quem amarei”, “Glosa” , “Definitivo”, “Sol da Ribeira”, “Soneto a Walflan” e “Trocas” são alguns dos melhores momentos do livro, que vale a pena ser conferido. Leonam Cunha, parafraseando o escritor Manoel Onofre Jr., no conto “A Primeira Feira de José “ , seja bem vindo ao mundo dos grandes.

* Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

Lançamento.*



Dai a César o que é de César.


Um dos ditados mais expressivos que já ouvi é o que diz “santo de casa não faz milagre”. Este velho dizer popular se encaixa  perfeitamente , na grande maioria das vezes, à cultura  potiguar, principalmente  tratando-se da nossa literatura.  Está mais do que evidente que fomos, e temos sido, omissos com  grande parte dos nossos escritores, principalmente os que andam à margem do sistema, seja na maneira de produzir ou  de se comportar. É bom ressaltar que Newton Navarro já reclamava nos anos 60, que tínhamos que ser mais cuidadosos com nossos escritores, não deixa-los para amanha, para mais tarde.
Fabião das Queimadas, Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes, são alguns dos exemplos de escritores que não tiveram seu devido reconhecimento literário em vida, o que, infelizmente, é o que acontece com a literatura de maneira geral; basta citar grandes nomes da literatura universal como Baudelaire e outros que só tiveram merecida consagração  anos depois da morte.
Resolvo tocar neste assunto depois de ler o livro, por sinal muito bonito e com um titulo e projeto gráfico muito feliz, Ganga Impura, de autoria de Volonté e Cura D´Ars.  Eu não os conheço pessoalmente, porém , me acho  no dever , pelo menos como leitor de poesia, e  atento  a outro dito popular extraído da Bíblia - “dai a César o que é de César”, - de registrar os méritos do trabalho destas duas figuras literárias que se preocuparam em deixar para o público leitor um bom livro de poemas.
Ganga Impura, publicado recentemente, e é dividido em dois blocos com sete poemas cada um, repartido entre os dois poetas. São espécies de poemas minimalistas, modernos, concisos e repletos de pecados e virtudes, como os dois poetas sugerem nos subtítulos. A primeira parte, que ficou por conta do experiente poeta Volonté, é dedicada aos pecados. São poemas  bem produzidos , trabalhados, inclusive repletos de intertextualidade, demonstrando que o autor doma bem a arte .
A segunda parte, das virtudes ,escrita por Cura   D´ Ars , é uma tentativa de deixar significados diversos em poemas quase minimalistas, numa busca de concisão poética aproximada do haicai
Enfim, Ganga Impura é um livro que vale a pena ser lido. Evidente que não é nenhum Livro de Poemas de Jorge Fernandes, mas, deve ser valorizado pelos seus méritos poéticos.


Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.