sábado, 5 de março de 2016

Artigo.

Reflexões, ruminações.

Por Chumbo Pinheiro.



De quem são as vozes ruminantes e ruminadas? Uma primeira resposta que nos dá é o poeta Alberto Bresciani: “Em Ruminar, David de Medeiros Leite dá voz aos corpos simultaneamente magníficos e frágeis de bovinos e a seus guardiões – exercício ousado e reorganizador de memórias e percepções do mundo,...”. Por outro lado, o professor Alfredo Pérez de Alencart adverte: “que as aparências não te confundam, pois tudo aquilo que se entende pode ser possível de comparação mais além do que teus olhos vislumbram: os homens e suas condutas não esquecidas, as que transcendem fronteiras...”.
Estas definições apresentam pelo menos dois distintos e importantes aspectos: no primeiro, identifica-se o exercício do poeta na execução da palavra que verbaliza a voz não humana, a voz dos ruminantes; por outro lado a voz do vaqueiro, do homem que expõe em palavras: pensamentos, sentimentos e desejos.
No segundo aspecto mostra-se um entrelaçamento destas duas vozes, ruminantes e guardiões, vacas e bois e vaqueiros, que se deve ter o cuidado de não confundi-las, tendo em vista, seu entrosamento, sua convivência e partilha da vida, que chegam a se comparar.
Estas aproximações entre o ser humano e o ser não humano povoam a literatura,  revelando sempre ou quase sempre a necessidade de profundas reflexões sobre a convivência humana na sociedade. David de Medeiros Leite traz em Ruminar estas reflexões.
Assim, somos levados a pensar: enquanto  se arrasta o carro de boi: “O ruído também/nos serve/de contra peso/ao fardo arrastado.” (Ruminar III). Retirando do peso do trabalho a dor e transformando em som que apazigua “o chocalho,/saibam,/é instrumento de comunicação/e nos apazigua em seu colo sonante.” (São Sons).
Ao lidar com o peso do trabalho reflete o vaqueiro: “A encouraçada lida/tece a vida/ (sem fina filosofia)/ amalgamando:/jornadas/agruras/pausas/e sonhos...”. (Pausa).
O vaqueiro tão nordestino, tão brasileiro é universalizado. São as relações humanas e sociais que o poeta revela: “Festa no alpendre/dança e alegria/colóquio e cantoria.”... ”Em meio a tanta algaravia,/olho para o estábulo/e tudo é calmaria...”. (Contraste). E já havia questionado o professor Alfred Pérez Alencart “Por acaso não é autenticamente “revolucionário” o poema Despertar?” Chamando a atenção do leitor não só para as mulheres trabalhadoras que logo cedo deixam de amamentar para voltarem ao trabalho, como para as desigualdades sociais que de forma quase imperceptível aparecem em alguns poemas como Destino : “Na pradaria,/entre escaramuças e carreiras,/brincam e coexistem/-em (quase) confraria-/os filhos do vaqueiro e nossos filhos.//... O povir,/para ambos,/será leve?”. Há nestes poemas o entrosamento e a comparação, mas se mantém a separação entre a voz do vaqueiro e a voz dos bois, e afirma o poeta dando voz ao  vaqueiro: “ Também os escuto/decodificando seus humores,/desgostos e contemplares./Sou capaz de decifrar/o olhar bovino/desde menino.” (Sujeitos).
David de Medeiros Leite resgata dois grandes símbolos da cultura nordestina, potiguar: o gado e o vaqueiro. Através de uma poesia profunda em suas reflexões e bela em sua composição.



Chumbo Pinheiro é poeta e articulista. Autor de Alguns livros Potiguares e outras obras.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Entrevista: Alex de Souza.


Entrevista com  o escritor e jornalista Alex de Souza.


1-Quais foram suas primeiras leituras?

          Bom, se eu quisesse te sacanear, poderia dizer que foi um livro chamado Gnomos, que ganhei lá pelos sete, oito anos, quando conheci meu pai. Ou ainda uma coleção dos Contos de Grimm, traduzidos pela Maria Clara Machado, porque foram realmente leituras cativantes que marcaram minha infância, junto com as HQs do Asterix, de Walt Disney e Turma da Mônica, ou o Recruta Zero. Mas seria uma resposta escrotinha. Se considerarmos ‘leitura’ um termo mais complexo, ou seja, livros que chamaram minha atenção para os mistérios e meandros da literatura, para a urdidura do texto, aí eu teria que te dizer que leitura, mesmo, só fiz lá pras bandas dos 13 anos. A primeira vez em que percebi a literatura como algo muito doido foi ao ler ‘O Trono no Morro’, de José J. Veiga. Na sequência, acho que dois outros livros foram basilares: “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, e ‘O Livro de Areia’, de Jorge Luis Borges.

2- Quando você percebeu que queria ser jornalista?

          Não sobraram muitas opções, afinal eu já sabia que seria um fudido, então só restava tentar me divertir. Quase todos meus amigos vagabundos que frequentavam nossa casa, certamente inspirados pela figura de papai e sua trupe, findaram fazendo jornalismo. Só Joab que deu certo na vida e virou carteiro.

3-Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?

Qualquer uma que me tire de onde estou.

4-Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?

Só um? A Bíblia. O maior pega-besta que já inventaram.

5-O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?

Só há um prazer quando se está escrevendo: terminar.

6-Um livro inesquecível?

              Vários, mas o primeiro que me vem à mente é Moby Dick. Vira e mexe me pego relendo-o, mas ainda não consegui decorá-lo. Acho que foram as drogas.  

7-Você atualmente mora em João Pessoa. Sente saudades de Natal?

            Não. Sinto saudades das pessoas que moram em Natal. É impossível desejar voltar a uma cidade que passou pelas mãos de Micarla de Sousa e que teve Ponta Negra destruída por Carlos Eduardo.

8-Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?

                    Nenhum, café me faz mal. Tenho taquicardia e queda de pressão quando bebo esse troço. Desconfio que boa parte dos escritores seria péssima companhia para qualquer bebida que não lombre.

9-Existe jornalismo cultural no Rio Grande do Norte?

                      Existe em quase todo canto. Agora, se presta, é outra história.

10-Qual a sua maior preocupação ao escrever?

                  Ultimamente é publicar, porque, se não fizer isso, ficarei reescrevendo por toda a eternidade.

11-Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “ Alex, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
            
             Eu o guiaria a Henrique Alves, na esperança de que o ET o levasse para estudos invasivos sem lubrificantes.

12-Carlos Fialho é o Alex Nascimento da nova geração (risos)?

                      Certamente. E eis aí a prova de quão fuleira é esta nova geração.

13-E a galera do Substantivo Plural, é legal?

                Há controvérsias se esse seria o termo mais adequado para qualificar aquele pessoal. No geral, são todos uns malucos bem gente fina, se você não alimentá-los de perto.

14-Fale-nos um pouco do seu livro sobre Moacy Cirne.

                Moacy foi um amigo que mudou minha vida. Depois de conhecê-lo, resolvi que poderia fazer a mesma coisa que ele: estudar quadrinhos como uma opção de vida, ou “carreira”, como gostam de dizer. Demorou quase uma década, mas deu certo. Por isso, quando ele morreu, percebi que a melhor maneira de homenageá-lo seria resgatando sua contribuição pioneira para os estudos sobre HQs. Este livro não exisitiria sem a figura de Abimael Silva, do Sebo Vermelho, outro grande amigo de Moacy, que bancou a primeira edição sem pestanejar. No livro, busco comentar, para um leitor iniciante, as principais obras de Moacy sobre o tema, como se fosse uma introdução ao seu pensamento. Obtive um retorno muito positivo da obra, principalmente entre os estudiosos de quadrinhos, por quem Moacy sempre foi muito querido. Espero ter alcançado esse objetivo. 

15-Quem é o escritor Alex de Souza?


               Depende, se você estiver lendo meus contos, minhas reportagens ou meus ensaios acadêmicos; se a gente se conhece há uma semana, ou há uma década; se eu estou sóbrio, ou de bermudas; se você consegue ser mais chato do que eu; e, principalmente, depende do que você me pergunta. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Entrevista:


Entrevista com o escritor Estevão Azevedo, por Thiago Gonzaga*


1. Estevão Azevedo, relate-nos um pouco da sua infância e juventude. Quais as lembranças que você tem da sua cidade natal?

Eu saí de Natal muito cedo, com uns três ou quatro anos. Ainda bebê, levei um tombo feio com meu triciclo na casa em que vivíamos em Natal. Não estou certo se são lembranças longínquas ou memórias inventadas, mas tenho algumas poucas imagens desse quintal onde ganhei a cicatriz enorme que carrego até hoje no cotovelo esquerdo. Voltei mais tarde algumas vezes, para visitar familiares ou como turista.

2. Quais foram suas primeiras leituras literárias e com que idade você compôs seus primeiros escritos? Eram sobre o quê?

É difícil lembrar exatamente as primeiras leituras, porque em casa meus pais sempre leram muito e tiveram muitos livros. Lembro com muita clareza, porém, do impacto de Marcelo, marmelo, martelo, de Ruth Rocha, por exemplo. Também era fascinado por uma coleção de livros-jogos, narrativas de aventura e fantasia em que ao final de cada capítulo o leitor deveria escolher um dos caminhos possíveis: “Se você quer abrir a escotilha da nave, vá para a página X. Se você quer permanecer no interior da nave e acionar os mísseis, vá para a página Y”. O caminho errado levava, depois de alguns saltos, à morte do personagem ou ao fracasso da missão. Alguns anos mais tarde, no começo da adolescência, li e reli com uma empolgação enorme alguns calhamaços, romances épicos ou de fantasia, best-sellers como Xogum, de James Clavell, ou As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.
Meus primeiros escritos devem ter sidos para a escola, redações, pequenas narrativas. Adolescente, eu lembro de ter tentado criar um universo ficcional que serviria ao meu próprio sistema de RPG, Role Playing Game.

3. Como e por que você foi morar em São Paulo?

Meu pai é do interior do RN, de Jardim do Seridó, e minha mãe do interior de SP, de Marília. Eles viviam no estado de SP, mas por conta da ditadura militar, depois de serem presos e soltos, voltaram ao RN. Foi quando eu nasci. Alguns anos depois, porém, com o processo de abertura política, voltaram a São Paulo.


4. Você é graduado em Jornalismo e Letras, algum motivo especial para a escolha dos cursos?

Eu comecei minha vida universitária na publicidade, pois desconfiava que o que eu queria fazer era algo relacionado à criação. No primeiro ano, porém, percebi que o que eu gostava mesmo era de criar textos, então mudei para o jornalismo. Durante o jornalismo, percebi que eu era envergonhado demais para apurar os fatos e que eu gostava mesmo era de escrever sem a amarra do real, então quando concluí o curso, ingressei na carreira de letras.

5. Como aconteceu a sua estreia em livro na literatura?

Eu tinha alguns contos escritos, que quase ninguém tinha lido, já que nunca tinha passado pela minha cabeça publicá-los. Na faculdade de jornalismo, uma professora que é crítica literária, porém, leu alguns contos e gostou, me incentivou a fazer algo com eles. Coincidentemente, nas redes sociais, eu vi um grupo de escritores que se reuniu numa editora independente e que buscava originais. Mandei meus contos para eles, eles gostaram, e meu primeiro livro, O som de nada acontecendo, saiu em 2005 pelo coletivo Edições K.

6.  Você publicou seu primeiro romance, “Nunca o Nome do Menino”, em 2008, um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. Relate-nos um pouco desse trabalho.

O romance estava mais ou menos na metade, sem que eu soubesse se iria terminá-lo, se ele prestava ou se eu teria a chance de publicá-lo um dia, quando um amigo de uma editora pequena me contou de um programa de incentivo à produção literária da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Inscrevemos o projeto do romance e ganhamos a bolsa para a edição. A partir daí, eu tinha um prazo para terminá-lo, o que me incentivou a ser mais disciplinado na escrita. Foi assim que nasceu Nunca o nome do menino.

7. Fale-nos do seu livro mais recente  “Tempo de Espalhar Pedras”, do que ele trata ?

Em lugar indeterminado, um grupo de homens cava e peneira a terra em busca de diamantes que não existem mais. Submissos ao coronel que se beneficia de seu trabalho, os garimpeiros procuram manter o equilíbrio instável de suas vidas, suspensos entre a penúria extrema e as artes da sobrevivência. Em meio ao cenário de extinção, surgem histórias de amor. Joca, Bezerra, Ximena e Rodrigo acreditam que o desejo poderá levá-los a outro destino. O crente Silvério busca refúgio na fé. Romeu e Julieta apocalíptico numa Verona reinventada no garimpo, aqui não há redenção nem esperança.

8. Estevão Azevedo, como acontece o seu processo de criação? Qual o melhor momento para escrever?

Como quase todo escritor, não consigo viver de literatura, por isso tenho outra profissão, a de editor de livros. Por isso escrevo nas horas vagas, sem muita disciplina, sempre que preciso e posso.

9. E seus trabalhos inéditos, muita coisa na gaveta? .

Eu tenho uma dissertação de mestrado sobre a obra de Raduan Nassar que gostaria de publicar. Nada ficcional.

10. O que você lê na atualidade? 

Por obrigação e prazer, um tanto de tudo. Em geral, muito mais literatura que qualquer outro gênero, prosa e poesia.

11. Você escreve em alguma outra vertente literária, além da ficção?

Escrevo palíndromos, aquele tipo de texto que, lido da primeira à última letra, ou no sentido inverso, da última à primeira, é exatamente igual. Tenho um site onde publico meus palíndromos: http://www.oriodoiro.tumblr.com/

12. Para o escritor Estevão Azevedo o que significa escrever?

Significa enfrentar o desafio pessoal de criar um universo a partir de um material muito limitado, a linguagem escrita, na qual um conjunto extremamente limitado de símbolos se agrupa e reagrupa de infinitas formas. O que quero dizer é que a literatura é um artifício, uma construção, mas uma construção que tem o incrível poder, quando estabelece uma conexão do texto com o leitor, de alcançar algo indefinível, variado, surpreendente e genuíno do ser humano. Poder participar disso, como escritor mas também como leitor, é uma aventura formidável.

13. Que outro tipo de arte desperta seu interesse além da literatura?

Todas, especialmente cinema, teatro e artes visuais.

14. Quais os seus planos futuros com a literatura?

Nenhum em específico. A escrita tem de ser uma jornada absolutamente pessoal que atinge, às vezes mas não necessariamente, uma dimensão pública. Quero seguir escrevendo, se e quando tiver vontade, e publicando, se e quando houver qualidade e interesse.

15. Quem é o escritor Estevão Azevedo?


Ainda não sei, sinceramente.





* A entrevista foi realizada antes de Estevão Azevedo ganhar o Prêmio São Paulo de Literatura.