terça-feira, 15 de abril de 2014

Artigo.



O dia em que a “música brega” morreu.



Os norte americanos imortalizaram o dia 3 de Fevereiro como "O dia em que o Rock Morreu", quando no inicio dos anos 50 um avião caiu na cidade de Clear Lake localizada no estado de Iowa, matando três músicos estadunidenses de rock and roll: The Big Bopper, Buddy Holly e Ritchie Valens, todos no auge do sucesso. Poderíamos sugerir então que 30 de janeiro de 1989, dia em que o cantor norte-rio-grandense Carlos Alexandre faleceu num trágico acidente de carro, foi o dia em que uma parte da música brega morreu.
Coincidência ou não, depois da morte de Carlos Alexandre, essa vertente musical tomou outros rumos, pois a “música brega" assimilaria no início da década de noventa novos aspectos, alguns até mesmo distantes da linha romântica popular conquistada por ela, como são os casos do brega-pop e do tecnobrega, bastante populares na cena regional  brasileira nos anos 90. Outras vertentes musicais como o Axé, Pagode e Sertanejo tomariam as TVs e FMs de assalto nos anos seguintes. Portanto a musica brega, consumida em exaustão pelas camadas mais populares da sociedade, perdeu muito da sua notória força com a morte do cantor que teve uma carreira brilhante e meteórica.
Uma prova evidente do poder dessa vertente musical e da capacidade de alcance dela na voz de Carlos Alexandre foi a proeza do início da carreira quando ele chegou à incrível marca de quatro discos de ouro em apenas dois anos de estreia musical, algo praticamente impossível para os artistas de hoje. Carlos Alexandre morreu no auge da fama, coincidentemente com uma história muito parecida com a do  seu maior ídolo: Evaldo Braga.
Eu tinha nove anos em 1989 quando Carlos Alexandre faleceu, mas já sabia cantar todas as suas principais músicas, tocadas exaustivamente nas rádios, casas, bares e clubes de Natal. Ciganinha, Feiticeira, Vem Ver Como Eu Estou, Sei, Sei, Arma de Vingança e Final de Semana, eram cantadas de cor por jovens e adultos de todos os lugares do país, principalmente as periferias. Carlos Alexandre, o cantor do Bairro da Cidade da Esperança tinha ficado nacionalmente conhecido e era exemplo para milhares de moradores do bairro onde iniciou a carreira como alguém que tinha vencido na vida, alguém que tinha acreditado no sonho. O artista era uma espécie de herói para o povo do bairro recém-criado. Eu fui com a minha mãe ao velório no ginásio do bairro, muito perto da nossa casa, a pé, mas ao nos aproximarmos do local, um dos primeiros grandes impactos que tive na vida: centenas, milhares de pessoas tomavam as ruas da Cidade da Esperança para ver de perto o maior ídolo popular do Rio Grande do Norte, todos cantando as suas canções. Nunca mais esqueci aquela cena.
Passados 25 anos da morte de Carlos Alexandre, eis que tenho a alegria de ver em minhas mãos a obra “O Homem da Feiticeira, A História de Carlos Alexandre”, escrito com maestria pelo jornalista Rafael Duarte. O livro é mais do que uma história de vida, é um verdadeiro documento de época. A forma como o jornalista nos conta a história de Carlos Alexandre é simplesmente formidável, incrível e digna de roteiro de cinema hollywoodiano. Em diversos momentos a emoção toma conta dos nossos olhos, algumas passagens narradas conseguem nos atingir com um lirismo digno das melhores obras de ficção.
 A biografia é rica, linda e muito bem documentada. Muitos leitores vão se surpreender com a história de Carlos Alexandre, menino pobre do interior que vem para a capital ainda adolescente e dois anos depois da sua chegada para residir na Cidade da Esperança estoura nas rádios do Brasil inteiro, graças à ajuda do radialista e politico Carlos Alberto e da namorada e futura esposa Solange tão importante e influente na vida e na carreira dele. Foi Solange, por exemplo, que insistiu para Carlos Alexandre mostrar a primeira música a Carlos Alberto, além de ser musa de canções dele como Feiticeira, Arma de Vingança dentre outras, ela também foi quem sugeriu o nome artístico Carlos Alexandre. Enfim, a obra é bela não apenas pelas informações que traz sobre a vida do artista, mas também por contextualizar Carlos Alexandre em Natal e sobretudo no Brasil do final dos anos 70 e  início dos 80.
 Rafael Duarte nos oferece através de uma narrativa poderosa uma biografia direta, que aborda sem meias palavras a vida, a luta e todos os percalços e vitórias que fizeram parte da formação e construção do maior artista popular do Rio Grande do Norte. Uma das biografias mais sensacionais que eu tive o privilégio de ler nos últimos tempos.


Thiago Gonzaga
Especialista em Literatura e Cultura Potiguar pela UFRN



terça-feira, 8 de abril de 2014

Artigo.



Meio azul, meio amarelo.

Por NASSARY LEE, Jornalista e poeta.

Li duas vezes “Aflições de um sonhador”, último romance de Marcos Medeiros. Na primeira leitura busquei descobrir, com a velocidade dos aflitos pelo desvendar dos fatos, quais eram as tais aflições pelas quais seu personagem central da trama, Felisberto, passara. Descobri um desfecho surpreendente na história onde a história da vida continua. Uma espécie de fim sem fim. Na segunda leitura procurei descobrir o que fazia de “Felis” feliz, isto é: um sonhador. Não descobri... Não descobri porque sonhar é talvez iludir-se e “Felis” não se ilude, o jovem tem os pés no chão. Tanto para a queda quanto para o recomeço! Ao ler Marcos Medeiros senti-me um pouco nos velhos tempos de escola. O toque da cigarra protagonizando ansiedades mil no jovem coração de Felisberto remeteu-me um saudosismo gostoso das peripécias movidas pelos desejos e ensejos hebiatras em “A droga do amor” de Pedro Bandeira. Inesquecível.
A narrativa de Marcos Medeiros é leve, sagaz, pontual e criativa dentro da banalidade de um enredo aparentemente batido. Uma criança é abandonada na caçamba de lixo, adotada, perde os pais em tenra idade e tem sua herança e bem estar ameaçados pela ambição mundana. O leitor pode esquecer essa fórmula pronta e partir para algo a mais. Nosso amigo romancista vai direto aos acontecimentos, sem muitos rodeios, uma característica literária bastante prática ao leitor moderno que busca rapidez e interatividade como quem consome pílulas de informações. Em contrapartida, nem por isso o autor deixa de compor uma escrita extremamente elegante, como bem apontou Aluísio Azevedo Júnior no prefácio da obra. Prova cabal dessa elegância em: “Decidiu levantar naquela hora, pois a natureza o chamava para uma visita ao banheiro”. E ainda: “O anfitrião ofereceu água, café ou um suco, no que teve sua oferta delicadamente declinada pelos visitantes”. Marcos Medeiros consegue ser polido sem ser prolixo com naturalidade. Tarefa essa que não é tão fácil a um escritor sem traquejo.
Ao mesmo tempo seu texto se utiliza de uma linguagem literária centrada na simplicidade da maneira de dizer as coisas nas vozes de seus personagens. Uma pequena amostra disso nas expressões tipicamente populares, a exemplo: “depois de repassar todo o filme de sua vida”; “apurou os ouvidos”; “não conseguia pregar os olhos”; “uma preguiça danada”; “o silêncio voltou a reinar”; “nascera em berço de ouro”; “viu-se como uma tábua de salvação”; “risinhos marotos a torto e à direita”; “e não se ouviu mais um pio sequer”; “a concentração foi para o espaço”.  Quem conhece o Marcos pessoa e não o Marcos escritor sabe que ele é intimista e espontâneo. Essa tática se confunde ao seu texto brilhantemente. É como se ele estivesse em uma franca conversa com o leitor por meio de um pensamento em voz alta: “Ninguém pense que aquele novo hóspede pode conciliar facilmente sono e pensamentos”. O traço popular na construção de seu enredo resgata a cidadezinha natal onde prevalece a mania de rezar inabalável, o sorvete feito com as frutas típicas mangaba e cajá, e o café da manhã regional (ovos mexidos, cuscuz, macaxeira e tapioca). Indaguei-me, pois, inevitavelmente: Teria sido América, o nome da namoradinha de Felisberto, inspirado no famoso clube potiguar de futebol? Seria o escritor um torcedor americano fervoroso?
Da sagacidade de Marcos Medeiros, não em vão; não por acaso, o romancista escolhe para ilustração da capa de sua obra um lado azul na contracapa da vida e um lado amarelo iluminando de frente aos sonhos da vida com um Sol no rosto de Felisberto, singela promessa de esperanças num futuro promissor – eis aqui uma breve licença poética de minha parte. Na língua inglesa quando alguém está triste diz-se que ela está blue (azul) e aconselha-se a esta pessoa: You should never be so blue (Você nunca deveria ficar assim tão triste). Quem disse que “Felis” é feliz apesar dos pesares se enganou. “Felis” traz um sorriso amarelo no rosto. “Felis” luta por ser feliz em meio às tristezas que marcaram o seu projeto de vida em tragédias (digo projeto apenas para me apropriar do termo utilizado pelo autor de “Aflições...”). Isso é típico da natureza humana. Quem diz ser feliz por inteiro é hipócrita. Não há felicidade completa, plena. Como diria o poetinha Vinícius de Morais: “Tristeza não tem fim, felicidade sim!”. Quem diz ser triste o tempo todo, precisa de ajuda, é depressivo, não é saudável.
Em “Aflições de um sonhador”, Marcos Medeiros opta pela descrição exclusivamente psicológica dos seus personagens, todavia repele a descrição física dos mesmos – exceto pela imagem da capa anteriormente mencionada – o que confere ao leitor uma liberdade imaginativa que não se pode nem deve ser desperdiçada. A verdade é que nós leitores somos sedentos por isso e apreciamos criar, tecer a teia das letras, tanto quanto os escritores. A verdade de Felisberto é que o lado azul bem poderia ser negro no tocante a desistência da vida diante das fragilidades humanas e vicissitudes no entorno das conquistas. Mas Felisberto decidiu virar o jogo!  
No jogo da sociedade, o mais difícil de acompanhar as regras com sabedoria, Marcos é capaz de passear em diversos temas polêmicos com maior ou menor tenuidade e tudo num só romance. Como é possível?! Abandono de incapaz, adoção, segregação racial, segregação social (disputa de status), interesse social (bajulações em troca de pequenos benefícios), do direito a vida privada (crítica a fofocas), da visão conservadora a figura de um mestre de sala de aula ou educador hoje não mais tão respeitosa quanto gostaríamos, do cavalheirismo e gentileza presentes no amor da adolescência hoje não mais tão puro quanto gostaríamos, da suposta violência sexual praticada por um padrasto, da preocupação com o dispêndio do elemento água pela preservação ambiental... mentiras, ganâncias e roubos familiares... e por aí vai... São infindas as discussões sociológicas que a obra levanta.
O autor confessou-me há pouco tempo que pretendia dar continuidade as lições de “Felis” quem sabe numa trilogia. Tomara! Inevitável perguntarmo-nos: América teria engravidado de Felisberto e também jogaria o filho fruto dessa mentira num lixão qualquer para que a desgraça de sua vida se repetisse? Pouco provável, mas desgraças são desgraças. Felisberto formar-se-ia bacharel em Direito, abriria uma ONG dessas de contos de fadas e lutaria em prol dos fracos, aflitos e oprimidos? Muito previsível, mas sonhos são sonhos. Marcos Medeiros decidirá. Ainda há litros de carga azul de tinta em sua caneta. Recomendo! Arrisco-me desde já.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Artigo.

O Fantástico Sertão de 
Márcio Benjamim.

O Sertão está em toda parte
Riobaldo em “Grande Sertão: Veredas”



O livro do escritor Márcio Benjamim, “Maldito Sertão” é um mundo, um universo onde se misturam mito, ficção, poesia e linguagem regionalistas. É uma viagem, uma incursão pelas estórias da nossa região. Poucos os contistas potiguares que tratam deste tema com propriedade. Afonso Bezerra, Manoel Onofre Júnior, Bartolomeu Correia de Melo e Clauder Arcanjo são alguns dos nomes da lista de escritores que o abordam.
Nos contos notamos espaços existenciais, vivos, personificados, verdadeiramente regionais, além de um vasto universo folclórico, repleto de vida e imaginação, brotando assim   os mais diversos sentimentos como  o riso, o medo,  a dúvida,  angústias,  esperanças, desilusões, o bem e o mal, e as tensões entre o homem, o sertão e o mundo, numa síntese onde tudo se transforma em linguagem.
O sertão a uma vasta (e indefinida) área do nosso país, que abrange boa parte dos Estados do Nordeste. Esta caracterização corrente de sertão é  tida como a de uma área despovoada ou escassamente habitada, quase deserta. Qualquer tentativa de definição ou delimitação do sertão ou dos sertões implica não só uma explicação geográfica, mas, sobretudo, uma compreensão histórica e social. Os causos do livro Maldito Sertão expressam um complexo de elementos fundamentais que valem nas relações humanas e sociais do país e as perpassam historicamente. Embora seu objeto de representação seja um ambiente determinado ( o sertão)  Márcio Benjamim recria,  reinventa e o localiza  em uma realidade mais ampla, mais rica em significados folclóricos e culturais em narrativas fantásticas.
Em Maldito Sertão, o sertão é um universo registrado como mítico, ativo e interativo, num ambiente natural e cultural, onde a figura sertaneja salta aos nossos olhos em cada narrativa, em cada estória.  Existe, nesse sentido, uma ponte de ligação, de transcendência entre o regional sertanejo e o universal humano na obra de Márcio Benjamim que se dá no campo da linguagem, destacando-se nos relatos fabulosos. A linguagem constitui assim um aspecto rico, amplo, que nos traz de volta a vida no sertão, as falas sertanejas, as angústias, os medos, as felicidades, as descobertas, os encontros e os desencontros humanos em temáticas universais. 
É no trato desta realidade sertaneja que destacamos uma grande síntese, uma capacidade de contar estórias em poucas palavras, mas com riqueza de léxico. Destacam-se dentre outros quesitos, o espaço geográfico e histórico, em que o sertão é narrado. Além disto, o fato de que as dimensões sociopolíticas e culturais do sertão extrapolam seus limites, tornando-se universais, apontando para uma tendência histórica posterior a esse momento.
No Maldito Sertão o homem se vê reduzido a um mero coadjuvante, onde o sertão é o principal personagem, um belo e imenso palco de estórias; ai se destacam o lado ficcional, o mítico e a exploração dos recursos da linguagem que adquirem contornos poéticos a cada nova estória.



                                                                                                                    Thiago Gonzaga








segunda-feira, 31 de março de 2014

Anote na sua agenda.

Sábado , 12 de abril, em Petrópolis, na Praça das Flores, à partir das 17hs, 
na Feira das Artes.

Novo livro do escritor Gustavo Sobral.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Artigo.


Os dez primeiros anos do resto de nossas vidas.

Em 2014, a Editora Jovens Escribas  está completando dez anos. Mas as comemorações vão além dos anos constituídos enquanto editora. A literatura potiguar comemora, sobretudo, o projeto editorial sério, solidificado, e a eficácia em despertar a nova geração para a leitura, para os livros, principalmente sem ser bairrista, graças ao talento de Carlos Fialho, Patrício Júnior e companhia.
Em uma década, a editora lançou vários títulos; alguns já são clássicos locais. Uma verdadeira proeza no mercado editorial potiguar. Autores  consagrados como Nei Leandro de Castro, Plabo Capistrano e Clotilde Tavares  foram publicados pela Editora, além de vários outros literatos.
 É evidente que desde o início do  trabalho, os jovens escribas têm prezado por bons conteúdos e  excelente concepção gráfica das  suas obras. Tendo em sua linha editorial textos sobre temas variados , a editora também se destaca por promover  eventos que propiciam o incentivo à leitura no Estado.
Acredito que este histórico é só o começo. Com uma prática simples e ao mesmo tempo revolucionária, fazendo história em solo potiguar, os jovens escribas conseguiram despertar o interesse e a atenção de leitores em geral, tornando-se conhecidos em todo o Estado, além de outros recantos do país.

Thiago Gonzaga