segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Artigo.*

10 novelas essenciais da literatura potiguar 

no século XX


Em ordem alfabética:

1. Agora Lábios Meus Dizei e Anunciai, de Inácio Magalhães de Sena.
2. Cabra das Rocas, de Homero Homem.
3. Crônica da Banalidade, de Carlos de Souza.
4. De Como Se Perdeu o Gajeiro Curió, de Newton Navarro.
5. O Dia em que a Coluna Passou, de Eulício Farias de Lacerda.
6. Os Enteados de Deus, de Fagundes de Menezes.
7. Geração dos Maus, de José Humberto Dutra.
8. Palavras Manchadas de Sangue, de Francisco Sobreira.
9. O Que Aconteceu em Gupiara, de Bené Chaves.
10. Temporada de Ingênios , de João Batista de Morais Neto.


Com esta lista, completo o – digamos –tríptico (romance, conto, novela), com o roteiro seletivo da ficção potiguar no século XX. Ressalvo que outras boas novelas poderiam constar da lista, mas, como quis destacar apenas dez… Menino de Asas, do próprio Homero Homem um verdadeiro clássico infanto-juvenil, com mais de 25 edições; Três Espaços em Três Novelas de S.F. Gurgel Filho; Dormentes- A Festa da Serra Encantada, de François Silvestre; Romão Rei e o Roqueiro da Praça do Cid, de Gustavo Luz, resumiram mais alguns bons momentos desse gênero literário no século passado.
Assim como no romance e no conto, neste inicio de novo milênio também temos autores escrevendo novela em solo potiguar, embora sempre em número menor. Por exemplo, cito de memória, Cefas Carvalho (Ponto de Fuga), Geraldo Edson de Andrade, morto recentemente, (A Traficante do Morro do Careca), Damião Gomes (O Futurista), Aluísio Azevedo Júnior (Havana), e dois jovens, com menos de vinte anos, que são promessas, um de Mossoró; Thiago Galdino (Suspeitas de um Mistério),e o outro de Natal; Guilherme Henrique Cavalcante (A Imagem do Cão).
Temos muitos outros bons nomes produzindo literatura de ficção na atualidade; Tullio Andrade, Márcio Benjamim, Jeanne Araújo, são exemplos de revelações da ficção potiguar, (cito apenas os novíssimos ).
Por fim, saliento, como Manuel Bandeira comentou, certa vez, ao elaborar uma das suas antologias: querendo ou não, a seleção de peças para se fazer uma antologia, inclui o gosto pessoal do organizador. Porém, busquei ser imparcial e justo.


*Thiago Gonzaga é pesquisador, especialista em literatura potiguar pela UFRN e mestrando em literatura comparada pela mesma universidade.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Artigo.*

Inventário do possível, de Tarcísio Gurgel: a construção da memória cultural através da literatura.




E depois das memórias vem
O tempo trazer novo sortimento
De memórias.
Carlos Drummond de Andrade

Certa vez, a italiana Daniela Marcheschi escreveu em um dos seus ensaios literários que o homem tem necessidade de não tornar inútil a História. Segundo a estudiosa, o homem sente uma abissal urgência de História, no sentido de uma plena consciência das dimensões históricas da cultura humana, porém não de maneira dogmática e consolatória. Imagine, caro leitor, quando a vontade de narrar a História parte de um escritor, um memorialista, então, História e Literatura juntam-se para tornar-se Memória, integrando-se à cultura. Daí só pode resultar algo positivo: arte, ciência e vida se interligam de modo muito forte.
Todos sabemos que a literatura, como arte, tem o poder de nos transportar no espaço e no tempo através da memória e da imaginação. Remetendo ao passado, nos permite pensar e repensar o homem, sua participação na comunidade, as tradições que se somam à nossa cultura, e mil coisas mais.
Focalizo o assunto Literatura & Memória, pois é justamente do que trata o novo livro do escritor Tarcísio Gurgel, “ Inventário do Possível”, publicado recentemente numa coedição da Sarau das Letras e EDUFRN. A obra não constitui propriamente uma autobiografia, mas, sim, uma narrativa de passagens no Tempo, com as vivências do autor e retratos de família, tudo registrado artisticamente. Do seu conjunto exsurge uma poderosa verdade sobre algo bem maior que a história individual do próprio autor. Trata-se, pois, de memórias de alto nível qualitativo, trazendo as nêmeses enterradas de volta à superfície, na escrita simples e sugestiva.
Passagens marcantes, como, por exemplo, o relato da vida em Areia Branca, a infância singela, a moradia modesta, os negócios do pai trabalhando com panificação, adquirem um relevo especial.

Aspectos da própria História de Mossoró, cidade onde a família do autor passou a residir, perpassam no livro, do começo ao fim. Leitores que viveram nos lugares descritos, no mesmo lapso do tempo, vão identificar, de imediato, vários locais, tipos e acontecimentos. Lembrei-me, em alguns momentos, de dois livros, que li recentemente sobre o lado humano de Mossoró, “Casa das Lâmpadas” e “Ombudsman Mossoroense”, de David de Medeiros Leite.
A nova obra de Tarcísio Gurgel vem para enriquecer a nossa cultura literária, sobretudo na área da memorialística, lado a lado com alguns bons livros, que temos, como, por exemplo ( cito de memória) : “ O Tempo e Eu “, de Câmara Cascudo ; “Província Submersa”, de Octacílio Alecrim; “ Memórias de um Retirante”, de Raimundo Nonato; “ Imagens do Ceará-Mirim”, de Nilo Pereira, “ O Caçador de Jandaíras”, de Manoel Onofre Jr.; “Saudade, Teu Nome é Menina”, de Maria Eugênia Montenegro e “Oiteiro”, de Magdalena Antunes.
Essas obras devem ser lidas e compreendidas, justamente, como modelos de supervivência histórica e cultural, bem como sínteses da alma de determinadas comunidades.
Memória – todos sabemos- é a capacidade humana de reter fatos e experiências do passado e retransmiti-los às novas gerações através de diferentes suportes. Existe uma memória pessoal, aquela, obviamente, guardada por um individuo, no que tange às suas próprias vivências, mas que contém também um tanto de memória do grupo social em que ele se formou e, por assim dizer, foi socializado.
Já disse o pesquisador e ensaísta Jacques Le Goff:
“Memória é um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades (…)”. Por conseguinte a memória cultural seria a capacidade que nos permite construir uma imagem narrativa do passado e, através desse processo, desenvolver uma imagem e uma identidade de nós mesmos. Como acontece na obra de Tarcísio Gurgel, em foco.
Evidentemente que todos nós, que somos ligados às letras, sabemos da importância de contar histórias e reviver o passado. De fato, os textos memorialísticos atendem a um tipo especifico de necessidade: a necessidade de consciência cultural: Pesquisadores que se dedicam a compreender a literatura como memória cultural realçam a ligação que se estabelece entre o ontem e o hoje, modelando e atualizando de forma contínua as experiências e as imagens de um passado no presente. Os textos literários memorialísticos podem, dessa maneira, funcionar como forma privilegiada de construção social.

Através do livro “Inventário do Possível”, a literatura potiguar contribui com a memória cultural, porque se constitui em um meio de transmissão e preservação de pensamentos, sentimentos e condutas, temas motivos e histórias, e influencia memórias e percepções individuais, assim como a formação de identidades sociais e culturais. Essa literatura vive atualmente uma das suas melhores fases, fiel ao que há de mais profundamente humano, que é a inquietação. Sirva de exemplo esse livro de Tarcísio Gurgel.


* Thiago Gonzaga é pesquisador.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Artigo.*

Cidade dos Reis, a literatura, o romance e a evolução de uma cidade

Atravesso o presente de olhos vendados,mal podendo pressentir aquilo que estou vivendo…Só mais tarde, quando a venda é retirada,percebo o que foi vivido e compreendo o sentido do que se passou…
Milan Kundera

Comentei, certa vez, em um ensaio literário que, assim como todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que se origina, e não há escritor completamente alheio a sua realidade, ao seu chão, a sua cidade. Partindo de algumas experiências pessoais, cada escritor recria o real, dando origem a um fato ficcional, e através dele consegue transmitir suas ideias e emoções ao mundo. Desta maneira compreendemos a literatura como um objeto vivo, uma verdadeira relação eficaz do escritor com o seu meio. Explano o assunto após a leitura da obra “Cidade dos Reis”, do escritor Carlos de Souza, um romance pioneiro no Estado, em se tratando de contar a história de uma cidade.Com desenvoltura, o romancista narra alguns dos principais fatos e personagens da cidade do Natal, ao longo do século XX, utilizando como pano de fundo a história de Jonas Camarão, desde a sua infância e juventude, o encontro com a sua adorada Mara, a dor da perda, as lutas, vitorias e desilusões, até sua velhice, no final do milênio passado.Um leitor mais atento vai observar muito mais o relato de episódios reais do que propriamente ficção. Na verdade, o principal personagem é a própria cidade de Natal; outros ficam em segundo plano, tudo, contado por dois narradores, um dos quais, de nome Juca Guiné, uma espécie de Câmara Cascudo local, que conhece muitos fatos e figuras da cidade, inclusive com episódios curiosos, como a passagem de Clarice Lispector por Natal, episódio este, que a própria escritora iria descrever detalhando haver detestado a cidade. São alguns dos relatos que misturam muito bem ficção e realidade.Lendo essa obra me vem à mente a famosa frase de Tolstoi: “Canta tua aldeia e serás universal”. Pode até parece muito clichê, mas é com ela que reafirmo a importância de nos voltarmos para o que é da nossa terra. Já era hora de Natal ter o seu romance; várias outras cidades têm sua biografia romanceada. Cito, de memória, como exemplos: “São Jorge dos Ilhéus”, de Jorge Amado; “Terra de Caruaru”, de José Condé”; “A Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello…Trabalhos dessa natureza cumprem uma função além do apenas literário.Segundo Antonio Candido, uma das funções da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, e ela é uma construção de objetos autônomos com estrutura e significado, e é também uma forma de expressão e de conhecimento. A literatura tem uma função “formadora”, que lhe confere um caráter educativo. Acredito que a afirmação do eminente crítico aplica-se a trabalhos dessa natureza, que além de entreter, educam, instruem.Para Candido existem na literatura níveis de conhecimento intencionais, ou sejam, planejados pelo escritor e conscientemente assimilados pelo leitor. É nesses níveis que o autor injeta suas intenções, sejam ideológicas, de crença, etc. .( é notória em algumas passagens do romance “ Cidade dos Reis” a posição ideológica do autor). Ainda, segundo Candido, a literatura satisfaz à necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando o leitor a tomar posição em face deles. Dessa forma destacam-se duas funções da literatura: a cognitiva, ou seja, de passar conhecimento, e a político-social, que é a que interfere no senso critico do leitor. Outro renomado crítico literário, José Guilherme Merquior, defendeu, certa vez, em um dos seus ensaios, nos anos 60, que o escritor deve colaborar na formação de uma sociedade, de modo cada vez mais crítico. Essa, uma das missões do artista. De acordo com Merquior, devemos compreender a arte como tendo também uma função cognitiva, e reconhecer o artista como um mediador de informações. De igual modo parece ter sido este o entendimento do escritor Carlos de Souza na construção de seu romance : uma obra que também ensina, forma.Em consonância com as ideias de Merquior, acredito que seja exatamente essa função da arte, especialmente, da literatura, que pode conferir ao escritor condições para tratar de assuntos sérios, relevantes, tornando-se assim um instrumento de transformação social. No presente caso, Carlos de Souza tratou de escrever o romance de uma cidade de forma séria, e, em linhas gerais, fidedigna, chegando ao ponto, como já disse, de deixar a obra com caráter quase não ficcional, tantos os relatos históricos nela inseridos.Evidente que alguns deslizes, os quais não vou me ater, por serem tão pequenos, não comprometem a riqueza e a importância de “Cidade dos Reis”. Importa sobretudo observarmos pontos fortes, como, por exemplo, a qualidade estética. Sabemos que a forma é o que propicia à obra sua natureza literária por excelência e lhe confere também uma feição poética. O livro de Carlos de Souza, está repleto de passagens poéticas, e foi minuciosamente organizado mediante a escolha dos elementos da linguagem, de maneira a constituir uma estrutura plena de significado, porém com facilidade para tocar qualquer leitor. Outro aspecto digno de nota: a universalidade de certos sentimentos, expressa na caracterização dos personagens, como por exemplo, o próprio relacionamento amoroso entre Jonas e Mara, a relação dele com os filhos, etc.Talvez, algumas lacunas sejam encontradas ao longo da narrativa, mas cabe ao leitor preenchê-las; há fragmentos que irão exigir redobrada atenção à leitura.Por fim, vale salientar que muitos natalenses não sabem sequer a história do seu bairro, quanto mais a de sua cidade, e – o que é pior- não sabem amá-la. Essas pessoas precisam, urgentemente, ler o livro de Carlos de Souza. Não somente elas, obviamente, mas todos quantos buscam o prazer e o proveito da literatura.

*Thiago Gonzaga é pesquisador, autor de “Presença do Negro na Literatura Potiguar” e outros livros.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Anote na sua agenda.


             A 8 Editora lança “Cruzeiros” mais um livro da poeta Maria Maria Gomes com crônicas que retratam sentimentos como liberdade e a beleza do sertão como a autora descreve bem e mostra semelhanças entre a vida e anseios, sentimentos fortes e as paisagens sertanejas. O lançamento será dia 06/08 - quinta-feira na Livraria Nobel na avenida Hermes da Fonseca, 1782, Tirol (em frente ao Hospital Walfredo Gurgel) às 19h.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Artigo.

Treze livros essenciais do conto potiguar no século XX

Por Thiago Gonzaga *



Em ordem alfabética:


1. Cárcere das Águas, de Fagundes de Menezes.
2. Chão dos Simples, de Manoel Onofre Jr.
3. Os Deserdados da Chuva, de Eulício Faria de Lacerda.
4. O Dia em que Tyrone Power Esteve em Natal, de Geraldo Edson de Andrade.
5. Um Dia… Os Mesmos Dias…, de Francisco Sobreira.
6. Estórias Gerais, de Jaime Hipólito Dantas.
7. O Homem que Assassinava Árvores, de Pedro Simões.
8. Lugar de Histórias, de Bartolomeu Correia de Melo.
9. Os de Macatuba , de Tarcísio Gurgel.
10. Os Mortos São Estrangeiros, de Newton Navarro.
11. Pedro Cobra e Outros Acontecidos, de Umberto Peregrino.
12. Sete Contos Curtos e Outros Nem Tanto, de Moacir de Góes.
13. Sete Degraus do Absurdo, de Edna Duarte.

Esta lista tem o intuito de servir como modelo, um parâmetro para alunos, professores e pesquisadores conhecerem o que melhor se produziu, em se tratando de contos, no Rio Grande do Norte, no século passado. São livros-base. Vale ressaltar Martins de Vasconcelos, como o primeiro contista potiguar, porém cito aqui mais pela relevância histórica do que pelo valor estético. Afonso Bezerra foi com certeza nosso primeiro grande contista, porém, morreu inédito, em livro, só tendo sua obra literária resgatada nos anos 60 por Manoel Rodrigues de Melo.
Outro excelente contista nosso, Nei Leandro de Castro organizou a primeira antologia de contistas potiguares, em 1966, porém, não publicou livro de contos no século XX; estreou, recentemente, em 2013, com a obra “Pássaro sem Sono”. É bom também observar que contistas como Francisco Sobreira, Geraldo Edson de Andrade e Tarcísio Gurgel são autores de outros livros de contos, publicados no século XX, que se situam no mesmo nível qualitativo dos que constam desta lista. Sobreira tem, pelo menos mais dois bons livros que mereceriam estar na lista; “Não Enterrarei os Meus Mortos”, e “ A Noite Mágica”. Bartolomeu Correia de Melo é outro caso semelhante: estreou em 1997 com um livro de contos, “Lugar de Estórias”, mas, no século XXI ele ainda iria produzir outros livros no mesmo nível. François Silvestre e Iaperi Araújo, veteranos cultores da ficção, (os dois fizeram algumas incursões pelo conto no passado) vêm cada vez mais se destacando neste inicio de século: o primeiro como importante romancista e o segundo como autor de contos de muito boa qualidade estética e literária, publicados em revistas literárias.
Comparada, a realidade deste novo milênio, é bastante diferente, pois sobressaem muitos outros bons livros de contos que, alias, não vamos listar, pois estamos analisando apenas obras do século passado. Mas é notório o excelente trabalho de ficcionistas como Aldo Lopes (Escritor paraibano radicado em Natal), Demétrio Vieira Diniz, Nelson Patriota, Pablo Capistrano e outros talentos de valor nacional.
Semana que vem finalizamos este trabalho com as dez novelas mais relevantes da literatura potiguar.


Thiago Gonzaga é pesquisador, especialista em Literatura Potiguar pela UFRN.