terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Entrevista: Alex de Souza.


Entrevista com  o escritor e jornalista Alex de Souza.


1-Quais foram suas primeiras leituras?

          Bom, se eu quisesse te sacanear, poderia dizer que foi um livro chamado Gnomos, que ganhei lá pelos sete, oito anos, quando conheci meu pai. Ou ainda uma coleção dos Contos de Grimm, traduzidos pela Maria Clara Machado, porque foram realmente leituras cativantes que marcaram minha infância, junto com as HQs do Asterix, de Walt Disney e Turma da Mônica, ou o Recruta Zero. Mas seria uma resposta escrotinha. Se considerarmos ‘leitura’ um termo mais complexo, ou seja, livros que chamaram minha atenção para os mistérios e meandros da literatura, para a urdidura do texto, aí eu teria que te dizer que leitura, mesmo, só fiz lá pras bandas dos 13 anos. A primeira vez em que percebi a literatura como algo muito doido foi ao ler ‘O Trono no Morro’, de José J. Veiga. Na sequência, acho que dois outros livros foram basilares: “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, e ‘O Livro de Areia’, de Jorge Luis Borges.

2- Quando você percebeu que queria ser jornalista?

          Não sobraram muitas opções, afinal eu já sabia que seria um fudido, então só restava tentar me divertir. Quase todos meus amigos vagabundos que frequentavam nossa casa, certamente inspirados pela figura de papai e sua trupe, findaram fazendo jornalismo. Só Joab que deu certo na vida e virou carteiro.

3-Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?

Qualquer uma que me tire de onde estou.

4-Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?

Só um? A Bíblia. O maior pega-besta que já inventaram.

5-O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?

Só há um prazer quando se está escrevendo: terminar.

6-Um livro inesquecível?

              Vários, mas o primeiro que me vem à mente é Moby Dick. Vira e mexe me pego relendo-o, mas ainda não consegui decorá-lo. Acho que foram as drogas.  

7-Você atualmente mora em João Pessoa. Sente saudades de Natal?

            Não. Sinto saudades das pessoas que moram em Natal. É impossível desejar voltar a uma cidade que passou pelas mãos de Micarla de Sousa e que teve Ponta Negra destruída por Carlos Eduardo.

8-Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?

                    Nenhum, café me faz mal. Tenho taquicardia e queda de pressão quando bebo esse troço. Desconfio que boa parte dos escritores seria péssima companhia para qualquer bebida que não lombre.

9-Existe jornalismo cultural no Rio Grande do Norte?

                      Existe em quase todo canto. Agora, se presta, é outra história.

10-Qual a sua maior preocupação ao escrever?

                  Ultimamente é publicar, porque, se não fizer isso, ficarei reescrevendo por toda a eternidade.

11-Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “ Alex, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
            
             Eu o guiaria a Henrique Alves, na esperança de que o ET o levasse para estudos invasivos sem lubrificantes.

12-Carlos Fialho é o Alex Nascimento da nova geração (risos)?

                      Certamente. E eis aí a prova de quão fuleira é esta nova geração.

13-E a galera do Substantivo Plural, é legal?

                Há controvérsias se esse seria o termo mais adequado para qualificar aquele pessoal. No geral, são todos uns malucos bem gente fina, se você não alimentá-los de perto.

14-Fale-nos um pouco do seu livro sobre Moacy Cirne.

                Moacy foi um amigo que mudou minha vida. Depois de conhecê-lo, resolvi que poderia fazer a mesma coisa que ele: estudar quadrinhos como uma opção de vida, ou “carreira”, como gostam de dizer. Demorou quase uma década, mas deu certo. Por isso, quando ele morreu, percebi que a melhor maneira de homenageá-lo seria resgatando sua contribuição pioneira para os estudos sobre HQs. Este livro não exisitiria sem a figura de Abimael Silva, do Sebo Vermelho, outro grande amigo de Moacy, que bancou a primeira edição sem pestanejar. No livro, busco comentar, para um leitor iniciante, as principais obras de Moacy sobre o tema, como se fosse uma introdução ao seu pensamento. Obtive um retorno muito positivo da obra, principalmente entre os estudiosos de quadrinhos, por quem Moacy sempre foi muito querido. Espero ter alcançado esse objetivo. 

15-Quem é o escritor Alex de Souza?


               Depende, se você estiver lendo meus contos, minhas reportagens ou meus ensaios acadêmicos; se a gente se conhece há uma semana, ou há uma década; se eu estou sóbrio, ou de bermudas; se você consegue ser mais chato do que eu; e, principalmente, depende do que você me pergunta. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Entrevista:


Entrevista com o escritor Estevão Azevedo, por Thiago Gonzaga*


1. Estevão Azevedo, relate-nos um pouco da sua infância e juventude. Quais as lembranças que você tem da sua cidade natal?

Eu saí de Natal muito cedo, com uns três ou quatro anos. Ainda bebê, levei um tombo feio com meu triciclo na casa em que vivíamos em Natal. Não estou certo se são lembranças longínquas ou memórias inventadas, mas tenho algumas poucas imagens desse quintal onde ganhei a cicatriz enorme que carrego até hoje no cotovelo esquerdo. Voltei mais tarde algumas vezes, para visitar familiares ou como turista.

2. Quais foram suas primeiras leituras literárias e com que idade você compôs seus primeiros escritos? Eram sobre o quê?

É difícil lembrar exatamente as primeiras leituras, porque em casa meus pais sempre leram muito e tiveram muitos livros. Lembro com muita clareza, porém, do impacto de Marcelo, marmelo, martelo, de Ruth Rocha, por exemplo. Também era fascinado por uma coleção de livros-jogos, narrativas de aventura e fantasia em que ao final de cada capítulo o leitor deveria escolher um dos caminhos possíveis: “Se você quer abrir a escotilha da nave, vá para a página X. Se você quer permanecer no interior da nave e acionar os mísseis, vá para a página Y”. O caminho errado levava, depois de alguns saltos, à morte do personagem ou ao fracasso da missão. Alguns anos mais tarde, no começo da adolescência, li e reli com uma empolgação enorme alguns calhamaços, romances épicos ou de fantasia, best-sellers como Xogum, de James Clavell, ou As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.
Meus primeiros escritos devem ter sidos para a escola, redações, pequenas narrativas. Adolescente, eu lembro de ter tentado criar um universo ficcional que serviria ao meu próprio sistema de RPG, Role Playing Game.

3. Como e por que você foi morar em São Paulo?

Meu pai é do interior do RN, de Jardim do Seridó, e minha mãe do interior de SP, de Marília. Eles viviam no estado de SP, mas por conta da ditadura militar, depois de serem presos e soltos, voltaram ao RN. Foi quando eu nasci. Alguns anos depois, porém, com o processo de abertura política, voltaram a São Paulo.


4. Você é graduado em Jornalismo e Letras, algum motivo especial para a escolha dos cursos?

Eu comecei minha vida universitária na publicidade, pois desconfiava que o que eu queria fazer era algo relacionado à criação. No primeiro ano, porém, percebi que o que eu gostava mesmo era de criar textos, então mudei para o jornalismo. Durante o jornalismo, percebi que eu era envergonhado demais para apurar os fatos e que eu gostava mesmo era de escrever sem a amarra do real, então quando concluí o curso, ingressei na carreira de letras.

5. Como aconteceu a sua estreia em livro na literatura?

Eu tinha alguns contos escritos, que quase ninguém tinha lido, já que nunca tinha passado pela minha cabeça publicá-los. Na faculdade de jornalismo, uma professora que é crítica literária, porém, leu alguns contos e gostou, me incentivou a fazer algo com eles. Coincidentemente, nas redes sociais, eu vi um grupo de escritores que se reuniu numa editora independente e que buscava originais. Mandei meus contos para eles, eles gostaram, e meu primeiro livro, O som de nada acontecendo, saiu em 2005 pelo coletivo Edições K.

6.  Você publicou seu primeiro romance, “Nunca o Nome do Menino”, em 2008, um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. Relate-nos um pouco desse trabalho.

O romance estava mais ou menos na metade, sem que eu soubesse se iria terminá-lo, se ele prestava ou se eu teria a chance de publicá-lo um dia, quando um amigo de uma editora pequena me contou de um programa de incentivo à produção literária da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Inscrevemos o projeto do romance e ganhamos a bolsa para a edição. A partir daí, eu tinha um prazo para terminá-lo, o que me incentivou a ser mais disciplinado na escrita. Foi assim que nasceu Nunca o nome do menino.

7. Fale-nos do seu livro mais recente  “Tempo de Espalhar Pedras”, do que ele trata ?

Em lugar indeterminado, um grupo de homens cava e peneira a terra em busca de diamantes que não existem mais. Submissos ao coronel que se beneficia de seu trabalho, os garimpeiros procuram manter o equilíbrio instável de suas vidas, suspensos entre a penúria extrema e as artes da sobrevivência. Em meio ao cenário de extinção, surgem histórias de amor. Joca, Bezerra, Ximena e Rodrigo acreditam que o desejo poderá levá-los a outro destino. O crente Silvério busca refúgio na fé. Romeu e Julieta apocalíptico numa Verona reinventada no garimpo, aqui não há redenção nem esperança.

8. Estevão Azevedo, como acontece o seu processo de criação? Qual o melhor momento para escrever?

Como quase todo escritor, não consigo viver de literatura, por isso tenho outra profissão, a de editor de livros. Por isso escrevo nas horas vagas, sem muita disciplina, sempre que preciso e posso.

9. E seus trabalhos inéditos, muita coisa na gaveta? .

Eu tenho uma dissertação de mestrado sobre a obra de Raduan Nassar que gostaria de publicar. Nada ficcional.

10. O que você lê na atualidade? 

Por obrigação e prazer, um tanto de tudo. Em geral, muito mais literatura que qualquer outro gênero, prosa e poesia.

11. Você escreve em alguma outra vertente literária, além da ficção?

Escrevo palíndromos, aquele tipo de texto que, lido da primeira à última letra, ou no sentido inverso, da última à primeira, é exatamente igual. Tenho um site onde publico meus palíndromos: http://www.oriodoiro.tumblr.com/

12. Para o escritor Estevão Azevedo o que significa escrever?

Significa enfrentar o desafio pessoal de criar um universo a partir de um material muito limitado, a linguagem escrita, na qual um conjunto extremamente limitado de símbolos se agrupa e reagrupa de infinitas formas. O que quero dizer é que a literatura é um artifício, uma construção, mas uma construção que tem o incrível poder, quando estabelece uma conexão do texto com o leitor, de alcançar algo indefinível, variado, surpreendente e genuíno do ser humano. Poder participar disso, como escritor mas também como leitor, é uma aventura formidável.

13. Que outro tipo de arte desperta seu interesse além da literatura?

Todas, especialmente cinema, teatro e artes visuais.

14. Quais os seus planos futuros com a literatura?

Nenhum em específico. A escrita tem de ser uma jornada absolutamente pessoal que atinge, às vezes mas não necessariamente, uma dimensão pública. Quero seguir escrevendo, se e quando tiver vontade, e publicando, se e quando houver qualidade e interesse.

15. Quem é o escritor Estevão Azevedo?


Ainda não sei, sinceramente.





* A entrevista foi realizada antes de Estevão Azevedo ganhar o Prêmio São Paulo de Literatura.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Livro do mês.

 "Entre Tempos" de Anchella Monte.

Ó Capitão! Meu capitão!

Walt Whitman

Recentemente, assistindo ao clássico filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, revi o professor John Keating, interpretado pelo falecido ator Robin Williams, em seu primeiro dia de aula na nova escola, começar a leitura com a frase, “Ó Captain! My Captain!”, titulo do poema de Walt Whitman, escritor considerado por muitos como o pai do verso livre, e um dos maiores poetas dos Estados Unidos, ao lado de Emily Dickinson. Nos versos de “Ó Capitão, Meu Capitão”, compreendemos que Whitman invoca seu principal inspirador, Abraham Lincoln, que foi o responsável por levar os EUA ao fim da guerra civil, com a abolição da escravatura e a união do seu povo. O professor John Keating falando sobre a importância da poesia e recitando o famoso poema, diz aos seus alunos que eles podem chamar-lhe de “Ó Capitão, Meu Capitão”, sugerindo, dentre outras coisas, que a poesia liberta, abre caminhos, muda nossa mente. O poema de Walt Whitman é sem dúvidas um dos grandes momentos da literatura universal.
É trivial comentar um filme que todos conhecem, mas é fundamental lembrar da cena final, numa espécie de ápice, quando os alunos mostram seu apoio ao professor John Keating recém demitido da escola, pelos seus métodos considerados avançados para a época. Num momento de provocação ao diretor da escola, todos os alunos sobem e ficam em pé nas cadeiras, recitando ao mesmo tempo: “Ó Captain! My Captain!”, demonstrado apoio e solidariedade ao professor que tinha mostrado pra eles os caminhos da poesia.
           Concluí a leitura do recém-lançado livro de poemas de Anchella Monte “Entre Tempos” (Sarau das Letras, 2015), e a obra da escritora me remete ao filme, não só pelo amor que ela tem pela poesia, pela literatura, pelos nossos autores e livros, mas, também, pelo amor que tem pela educação; ela inclusive é professora e foi uma das pioneiras na capital, quando a iniciativa era levar escritor potiguar para falar de sua obra em sala de aula.
Ler Anchella Monte me faz lembrar Whitman no sentido de que os dois são poetas que nos elevam a uma liberdade plena. A poesia de Anchella, tal como a de Whitman é um verdadeiro estímulo ao intelecto, à sensibilidade, ao bom gosto. Num poema, Whitman disse certa vez: “Sou contraditório, sou imenso, existem multidões dentro de mim.” A poeta, assim como Whitman, traz em seu eu lírico várias dessas subjetividades e eterniza em sua poesia a pessoa sensível e humana que ela é.

Vale lembrar que Anchella Monte, ao lado de Rizolete Fernandes e Carmen Vasconcelos, trazem consigo os méritos de serem herdeiras de uma tradição poética feminina muito forte em solo potiguar, tradição esta herdada por Diva Cunha, Marize Castro e Iracema Macedo, como principais nomes contemporâneos, e que vem se renovando recentemente com nomes como Jeanne Araújo, Maria Maria Gomes e Kaliane Amorim.
Em “Entre Tempos” é muito marcante a presença da memória, das lembranças: “Quando eu era pequena/tomava banho de rio”… Esta é uma das características mais fortes da poesia de Anchella Monte, inclusive nas obras anteriores. A natureza: “Era uma vez um pé de fícus/ guardadas as pás/ as folhas que não ventam mais/ um tronco dilacerado”… A causa social: …”Os passos do menino seguiram/marcados pelo peso do carro/ pesado em sua infância operária”… Além de outras temáticas de natureza humana, como o próprio ato de amar (Fraternal): “Depois que eu fui mãe/sou mãe/ Em tudo há um cheiro de leite/de toalhas com lavanda”…
Aspecto igualmente importante que vale ser destacado na poesia de Anchella é a proximidade com a prosa, e o seu vinculo com a própria musicalidade, aliás, não à maneira de Verlaine, porém perto do que Valéry fez, como pode se ver em “Varieté III”. Mas, nos versos de Anchella Monte a palavra não é empregada como puro som, um adereço fônico, mas, sim atendendo exigências como um instrumento transmissor de pensamento e ideias universais.
O título da obra, “Entre Tempos” sugere também, no meu entender, uma espécie de intervalo que o poeta deve dar em suas produções. Não existe poeta que consiga todo ano publicar um excelente trabalho artístico; isso é praticamente impossível. A história da literatura está repleta de grandes poetas que publicaram em vida apenas um ou dois livros de poemas, vide, por exemplo, Baudelaire, Arthur Rimbaud, Augusto dos Anjos, Jorge Fernandes.
O acentuado lirismo de Anchella Monte traz marcas, traços, registros de fatos e coisas que, às vezes, estão ao nosso redor, e não paramos para observar. Talvez seja a modernidade, as novas tecnologias, nos afastando do lado simples da vida. A propósito, o estudioso Alfredo Bosi disse certa vez que a poesia “parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender.”

Ficamos alegres em ler um livro de alguém que tem compromisso com a arte poética. Que não faz versos para “aparecer”, (como muito se tem visto aqui no Estado, em dezenas de publicações) e sim com competência e responsabilidade. Que todos nós subamos em nossas cadeiras em homenagem ao capitão, ou melhor, a capitã Anchella Monte.



Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Livros do mês.


TRÊS NOVOS LIVROS DE POEMAS


Eis que a poesia potiguar contemporânea pode comemorar três novas publicações significativas nesta reta final do ano de 2015, com os novos livros “Ruminar” (Sarau das Letras, 2015), Corpo Vadio” (Editora Penalux, 2015) e “Relicário” (Sarau das Letras, 2015).

POEMAS DO VAQUEIRO E DO BOI

Todos sabemos que o vocábulo “ruminar” significa “entre os ruminantes, remastigar, remoer os alimentos, aqueles que retornam do estômago à boca” (Dicionário Aurélio, 2010). Mas, em sentido figurado também quer dizer, “cogitar profundamente; pensar, refletir muito” (Ob. cit.). David Leite joga com essa ambivalência, e faz com que o eu lírico se expresse pelos ângulos do boi e do vaqueiro. É o leitmotiv da sua obra. No entanto, o poeta invoca outros elementos do mundo rural. O carro de boi, por exemplo, presente na ilustração da capa do livro – é um dos mais primitivos meios de transporte, ainda em uso no interior do país, para a condução de cargas e pessoas. Quando em movimento, o autêntico carro de boi emite um som estridente, característico, que anuncia a sua passagem. Com elementos como este, formulou-se a proposta de David Leite: cantar o espaço, os animais – principalmente, o boi – as coisas e o homem do sertão.
 A poesia de “Ruminar”, que tem caráter rural como escrita cultural, de revelação da subjetividade, é exercitada, neste trabalho, dentro dos princípios de significação que o homem dá a sua existência. Mesmo morando em cidade grande, distante do sertão, o escritor,  assumiu através da linguagem poética uma forma de mediação entre sua experiência humana individual e a experiência do sertanejo. Sua palavra registra as transformações e adaptações de formas tradicionais de relacionamento com o território e com o meio social, revelando transições nas vidas dos indivíduos. O universo descrito por David Leite apresenta-se como um vasto campo de possibilidades de entendimento e de despertar de sensações. Mesmo que percorrendo caminhos tão peculiares, como é o da poesia popular, gerada a partir da oralidade e que na transcrição para o suporte gráfico procura manter as características originais da fala, é possível articular interseções entre um conhecimento destituído de formalidade e apegado a emoções artísticas.
A visão poética que ele tem do sertão lhe permite, por exemplo, retratar num contexto poético um nível da sensibilidade que caracteriza e marca seu “Ruminar”.  Atente-se particularmente para os trechos dos poemas a seguir:

A gemedeira do carro de boi
faz o homem,
de beira da estrada,
admirar nossa passagem

Em outro; dando voz ao boi:

            Por que
nos marcam
a ferro e fogo ?

 “Ruminar” é, para David, um ser vivo, ora humanizado ora zoomorfizado. Mas é no que tange à prefiguração linguística dominante no texto, a metonímia, que se verifica a força maior da poesia.
Estas afirmações apontam para qualidades que tornam “Ruminar”, antes de tudo, uma obra poética, embora contenha, um esboço atinado e intenso da realidade sertaneja, não apenas no lírico, mas nos aspectos histórico e sociológico.  Quanto à programação visual, não nos parece que seja feliz a capa com uma pintura passadista.


David Leite retrata, nos caracteres de sua obra, a impressão conjunta das paisagens, dos animais e das gentes do Sertão, numa poesia puramente brasileira. Dentro do padrão nordestino, uma poesia que é livre das rimas, da métrica, mas arraigada principalmente na filosofia sertaneja, nos costumes, tradições, e plena de um franciscano sentimento em relação aos nossos “irmãos menores”, os bichos.

A TRADIÇÃO REINVENTADA DE CORPO VADIO.

Um erotismo sutil, em forma de arte, esta é a principal característica da obra  “Corpo Vadio” (Editora Penalux, 2015) da poeta seridoense Jeanne Araújo. A relação que Jeanne estabelece com os modelos poéticos da tradição poderia chamar-se de uma tradição reinventada. Pois a característica mais evidente da  sua poesia é o viés erótico, que chegou até a nossa literatura, de maneira mais evidente no final dos anos 70 com Socorro Trindad, Diva Cunha e Marize Castro, mas que ganha novo folego e formato com os novos exercícios que se tem feito com a palavra nesse viés no Estado.  
O caráter marcadamente metafórico adquirido pelos poemas de Jeanne Araújo representa uma expansão no alcance da poesia. Muito se tem versado sobre tal temática, nos últimos anos, no Rio Grande do Norte, mas, não com a sutileza que a poeta seridoense expressa com efeito, a produção poética de Jeanne  Araújo sugere situações eróticas em forma artística, muito bem construídas.
                 A poeta trata o tema com rara expressividade, alargando as fronteiras do erotismo feminino, com o seu lírico utilizando-se de metáforas e sugestões  verbais. Revelando anseios e desejos, num evidente enriquecimento poético-erótico, digno de coloca-la em destaque na poesia do Estado. Observamos que a poeta seridoense lançou mão da combinação de elementos que transcendem a simples materialidade linguística e remetem a significações outras, ao mesmo tempo em que cria uma poesia que aponta para uma linguagem erotizada, como vemos no poema  a seguir:

Fruto

Em suma
teu sumo doce
fez fruto
na minha árvore genealógica.





Por meio de metáforas, os elementos constitutivos do poema passam por um processo simbólico de significação que une corpo e linguagem, explorando e sugerindo, assim, o erótico na palavra.  Escritas, como estas, são capazes de criar novas perspectivas, numa poesia de caráter, também, de militância. Não há como descartá-las na construção do discurso literário feminino e potiguar.


O UNIVERSO LÍRICO DE RELICÁRIO.

Outra surpresa agradável, nesse final de ano, é o lançamento de “Relicário” (Sarau das Letras, 2015) da escritora Kalliane Amorim, Embora o título pareça clichê, a poeta trabalha com as palavras de maneira consciente, demonstrando domínio da apropriada arte de escrever poesia. Interpretar alguns dos poemas de Kalliane é trazer para a consciência a paradoxal dificuldade de explicar as coisas simples. O caminho possível é, sempre, atentar para a produção de uma linguagem que nasce a partir de sua necessidade, a necessidade de expressar o essencial.
Kalliane Amorim é uma poeta, de versos despojados, acessível, quase sempre direta. Sua proposta é relatar, sobretudo, os fatos cotidianos, memórias medos, desejos, além da própria arte do fazer poético, a metapoesia. Tais elementos transfiguram-se de tal modo em sua experiência poética que parecem brotar do mesmo chão e serem feitos do mesmo material. Esse procedimento que é próprio da linguagem poética, acaba prendendo o leitor e fazendo com que  este enverede pelos versos, bem trabalhados, da poeta.  A consciência de linguagem de Kalliane Amorim demonstra claramente o exercício constante da leitura e o desejo de se expressar trabalhando formalmente  as palavras. Vejamos um poema:

Arbítrio

Quantas ruas
ouvirão o som dos meus passos?

Quantos telhados
acordarão sobre os meus olhos ?

Quantas palavras
dormirão à minha espera?

Vivo morrendo
de não ser
                       sendo.

Essa característica vem exatamente do artesanato poético que poeta oestana elabora para comunicar ao mundo uma consciência aguda do sentido da vida e dos limites humanos. Existe aí toda uma arrumação vocabular e exploração dos significados, tudo de maneira clara, objetiva, para expressar uma evidente paixão, não apenas uma paixão pela vida, mas, sobretudo pelas palavras, pelo fazer poético. É esse processo que faz de “Relicário” uma obra genuinamente literária.












Livros do mês.

DOIS ESCRITORES, DUAS OBRAS E UMA MISSÃO: A ARTE LITERÁRIA ATRAVÉS DO CONTO.


Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura.
Memórias da Emília de Monteiro Lobato


Desde o final dos anos 80, sobretudo a partir do inicio dos 90, houve uma verdadeira explosão de criação literária no Rio Grande do Norte, em particular na área ficcional. Vários escritores potiguares passaram a colocar no papel, e publicar em livros, seus contos, novelas e romances. De temáticas e tendências variadas, observamos que a maior parte destes ficcionistas têm como principal foco, o urbano, o cotidiano; em alguns, as transformações sociais, e, em pequenos casos, o sertão. Outros, se utilizam de um certo simbolismo, uma metáfora, para criar o seu mundo ficcional. Alguns, de maneira artística, buscam no passado o assunto para as suas obras, trabalhando as memórias em suas narrativas, demonstrando  preocupação com o registro de fatos pretéritos, misturados  à ficção.
Suscitamos o assunto após ler o novo livro do jornalista e escritor Osair Vasconcelos, “As Pequenas Histórias” (Z Editora, 2015), que traz nos seus contos evidentes marcas da arte de recordar, sobretudo recordar o seu chão de origem, a cidade de Macaíba.  O título da obra nos remete ao livro de José Saramago, “As Pequenas Memórias”.
Uma das maneiras de o escritor mostrar esse interesse pelo tema parece ser justamente o uso de narrativas, as quais se constituem como um mecanismo frequentemente utilizado para mostrar o quão tênues são os limites entre a ficção e a realidade; as lembranças, recordações, rememorações, misturando-se, enlaçando-se com a narrativa ficcional. Ora, veja bem, caro leitor, enquanto o historiador pretende escrever sobre a história que outros viveram, o narrador fala de uma história vivida por ele ou incorporada de tal forma à sua vida como se ele mesmo a tivesse vivido. Nos contos de Osair Vasconcelos essa é uma das principais características. Contos como “Zé Jipe vê a cidade de cima”, “Aquela Viagem” são narrativas que, evidentemente, misturam fatos verdadeiros com ficção. Outro bom momento é quando ele homenageia, de forma muito singela, uma das nossas maiores poetas, Auta de Souza, filha de Macaíba, no conto “Maria Encontra a Poeta”. Mas, no meu entender, onde Osair demonstra mais habilidade na arte de contar história é no conto “Ele e Ela”, conto muito bem elaborado, com toques refinados de humor, de ironia e tragédia, (o narrador merece um bom estudo analítico). Nesse conto especificamente o leitor vai ficar em duvida: onde entram a realidade, nesse caso a memória, e a ficção? Com grande poder de síntese, Osair constrói uma narrativa digna de constar em qualquer antologia de nível nacional.
É verdade que a memória sempre motivou discussões ao longo da história, nas mais diversas artes, e com a literatura não poderia ser diferente. E como funciona o processo da rememoração? Como tantos indivíduos, sobretudo os artistas da palavra, a trabalham?  “As Pequenas Histórias”, nos dão uma pista; há uma série de fatores de ordem sociopolítica e cultural que influenciam esse processo. Nos contos referidos são evidentes essas marcas.
Ao que nos parece há uma necessidade universal, inclusive literária, de “memorizar”, guardar as lembranças de forma artística, e todos nós representamos os nossos papéis neste processo. O escritor, à medida que passa para o papel uma dada categoria de memória, quer dizer, suas memórias pessoais, ou aquelas que se relacionam ao gênero, etc., mesmo que sejam ficcionalizadas, tenta combater esse medo do esquecimento, fantasma que parece rondar o ser humano desde sempre.
Osair Vasconcelos trata artisticamente do assunto em seu livro de estreia. Cremos que alguns narradores dos seus contos são expoentes de uma necessidade  de continuidade, da certeza de saber que o registro irá ficar. Vários personagens procuram uma história na continuidade de uma memória, sua percepção do passado se apoia na suspeita de que ele não é verdadeiramente passado, se amparando numa ideia semelhante à de Octavio Paz, segundo a qual “o que passou efetivamente passou, mas há alguma coisa que não passa, alguma coisa que passa sem passar completamente, perpétuo presente em rotação”.
Os contos de Osair possuem um caráter dinâmico, são de fácil compreensão e podem ser guardados na lembrança e recontados, como acontece com as estórias dos narradores que se louvam da transmissão oral da memória e do conhecimento.
-0-
Outra estreia no conto, em livro, é a do jornalista e escritor Carlos de Souza, com “Urbi” (Sebo Vermelho Edições, 2015). Carlos de Souza, que há muito tempo devia à literatura potiguar um livro de contos, surge com este, justamente no ano em que se completam 27 anos de publicação do seu primeiro livro, “Crônica da Banalidade”, uma novela que, imediatamente o lançou como escritor, reconhecido dentro da nossa literatura.
Em “Urbi” o autor atinge o momento culminante em sua carreira como ficcionista.  Se, no seu romance de estreia, “Cidade dos Reis” alguns pequenos deslizes foram cometidos, no livro de contos, ele chega muito próximo da perfeição estética a que uma obra de arte literária aspira. Aqui no Rio Grande do Norte, só os mais experientes têm chegado a esse patamar.
Em alguns contos de Carlos de Souza, o narrador se preocupa em mostrar o outro lado da vida. Por vezes, como nos contos de Osair Vasconcelos, percebemos algumas marcas de memórias, de influências livrescas, de leituras. Deixando uma espécie de parábola, como por exemplo, no conto “A Cidade Escura”, para aqueles que leram a sua versão dos fatos observados pelo narrador. Isto nos remete ao ensaísta e crítico literário Walter Benjamin, que afirmou certa vez: “O conto é, ainda hoje, o primeiro conselheiro dos homens porque o foi outrora da humanidade, vive ainda secretamente na narrativa. O primeiro verdadeiro narrador é e continua a ser o do conto”.
  “Urbi” contém oito contos, três deles premiados. Não bastassem esses contos premiados, apenas o conto “Eclésia” seria suficiente para o livro valer a pena. O escritor, dublê de jornalista, pegou um fato do noticiário e bolou uma história com um final moral muito significativo, onde percebemos claramente a influência do narrador na história, sobretudo com a sua ideologia e seu ponto de vista religioso. Conto fantástico, esse, vale dizer.
Em outros contos, podemos inferir que o autor acredita em fatos históricos reconstruídos por quem narra a história e que estes fatos não necessariamente correspondem à realidade.  A propósito, Walter Benjamin declara: “Narrar histórias é sempre a arte de as voltar a contar e essa arte perder-se-á se não se conservarem as histórias”.
Osair Vasconcelos e Carlos de Souza, como nos narradores dos contos descritos por Walter Benjamin, dispõem de uma autoridade que lhes dá credibilidade, mesmo quando o fato descrito não seja verídico.
É necessário reconhecer um amadurecimento na produção literária do Rio Grande do Norte. Especialmente na ficção produzida pelos mais experientes, constatamos o cuidado com as palavras, o zelo com a forma. Nada na obra dos dois contistas é colocado em vão, nada é esquematizado por acaso, e até coisas que já foram ditas em outros escritos seus, tornam-se interessantes, diferentes, prendendo a atenção do leitor.
 Por fim, acreditamos que esses trabalhos têm folego para passar pelo filtro da História; têm um diálogo bastante rico com a literatura como forma de expressão e fonte de compreensão das mais diversas e profundas inquietações humanas.
 Osair Vasconcelos e Carlos de Souza são escritores, que levam a literatura a sério.  “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”, de Demétrio Vieira Diniz, ganhou concorrentes à altura, neste final de ano.







quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Anote na sua agenda.



              Inácio Magalhães de Sena, Falves Silva, Horácio Paiva, Osair Vasconcelos ,Carlos Gurgel ,Aluísio Barros De Oliveira ,José Acaci ,Muirakytan Kennedy de Macêdo ,Jeanne Araújo ,Alexandre Alves ,Tatiana Morais ,Theo Alves ,Márcio Benjamin ,Iara Maria Carvalho ,Wescley J. Gama ,José De Paiva Rebouças ,Kalliane Sibelli Oliveira  ,Yuri Hícaro , dentre outros.