terça-feira, 28 de outubro de 2014

Artigo - Thiago Gonzaga



O diário pessoal de um escritor


Devemos escrever para nós mesmos,
é assim que poderemos chegar aos outros.
Eugéne Ionesco

Escrever diários é uma tradição antiga. Os primeiros diários pessoais de que se tem notícia eram chamados livros de cabeceira no Japão do século VIII.  Na literatura universal temos vários exemplos de diários famosos como os Diários de Franz Kafka  que cobrem o período entre 1910 e 1924, ano em que o escritor  morreu de tuberculose aos 40 anos. Kafka revelou o intenso conflito psicológico que o afligiu, o isolamento social, a saúde frágil e uma complexa relação familiar, especialmente com seu pai, que nunca aprovou ou reconheceu a carreira literária do filho.
O Diário de Anne Frank talvez seja um dos mais famosos do mundo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a adolescente de 13 anos e sua família foram obrigadas a se esconder da perseguição nazista em uma casa que ficou conhecida como Anexo Secreto, e tudo registrou no seu diário.
Impossível fazer qualquer lista de diários sem citar os da escritora Virginia Woolf. A inglesa manteve-os desde 1915 até 1941, quando suicidou-se. Ter um diário, acreditava, ajudava a melhorar sua escrita.
A Servidão Diária do escritor Manoel Onofre Júnior é um diário com vários escritos,  espécies de mini crônicas, de diferentes períodos, dividido em duas partes, sendo que a mais antiga é de 1988-1991,  e a segunda parte , mais numerosa, de 2013- 2014. O autor descreve  não apenas acontecimentos pessoais, mas assuntos diversos, como o próprio contexto histórico e literário que presencia e faz questão de deixar registrado no espaço e no tempo; também, alguns temas são abordados de maneira mais extensa, como, por exemplo, nas resenhas de livros lidos pelo autor.
No Rio Grande do Norte desconheço escritor que tenha se dedicado a esta vertente literária tão rica em dados e informações, que, na grande maioria das vezes, contém verdadeiras pérolas. Além de funcionar como uma espécie de “desabafo” pessoal do escritor, existe uma transformação de sentimentos em palavras escritas que faz com que o conteúdo tenha uma plurissignificação. Além do mais, o leitor passa a conhecer a rotina e o dia a dia do escritor, com quem se identifica em termos literários e admira, conhece um pouco do seu pensamento, da sua ideologia, e até descobre como grandes eventos repercutiram em sua vida. Os diários são uma ótima maneira de nos aproximarmos do nosso escritor preferido. Por essas e outras  informações, ler diários é além de prazeroso, muito útil.
A Servidão Diária é mais que um diário, é uma espécie de epístola de identidade. Porque é importante para o autor escrever? Porque, para se contar qualquer coisa, tem de haver um olhar e o olhar pertence a uma pessoa. Porque existe a necessidade de registrar fatos que futuramente irão servir para estudantes e pesquisadores das mais variadas áreas. Um diário é importante também para sabermos aonde vamos, no decurso da narração; temos de saber de onde vimos, temos de conhecer as nossas raízes, humanas e sociais, temos de partir dessas raízes para construirmos o mundo da narrativa.
O que se deve contar, na maior parte das vezes, está muito perto de nós e, para ser contado, exige uma grande simplicidade, uma habilidade na arte de narrar.
Sentimo-nos acompanhados se, no meio de tanta coisa perdida, repararmos que temos alguém que fala de nós de uma forma tão leal e autêntica, tal como se nos víssemos ao espelho. Há o reviver constante de momentos de prazer e outros tantos de desgosto. E ainda mais interessante é verificar que, ao longo de muita escrita particular com muitas quedas entre novas palavras descobertas e outras por descobrir, aprendemos a seguir os nossos próprios caminhos e a escolher outros tantos quando a dúvida surge.
A Servidão Diária é um livro muito interessante de uma escrita agradável, bonita; o autor prova que não é necessário ser difícil, prolixo, complexo e utilizar palavras raras e de custosa interpretação. Podemos, a partir da prática da simplicidade, penetrar , por meio da síntese, na essência da narração, e mesmo assim ainda encontrar poesia em meio às palavras.