quarta-feira, 18 de maio de 2016

Artigo.

GRANDES MOMENTOS EM PEQUENAS HISTÓRIAS DE OSAIR VASCONCELOS

Por Chumbo Pinheiro*


Sete personagens e um pequeno universo. A história da humanidade tantas vezes contada, recontada, não para de nos surpreender, nos chocar, nos frustrar ou ao contrário, confirmar expectativas, descobrir e redescobrir a grandeza de cada ser humano, nos encher de esperança e fé, como entoamos nas canções de nossos músicos: “Fé na vida, fé no homem, fé no que virá” de Gonzaguinha, ou ainda: “Mas se Deus quiser, tudo, tudo vai dá pé” de Gilberto Gil.
Assistimos nas grandes cidades, em sua agitação e correria, o desaparecimento de suas personagens e moradores reais. É crescente o individualismo, a indiferença, a competição entre todos. Por outro lado, talvez ainda seja possível perceber nas pequenas urbes, mesmo sob a influência cada vez mais acentuada dos hábitos modernos, traços daquilo que é mais humano: os sentimentos de solidariedade, os amores, as alegrias e paixões expressas pelos indivíduos e pela coletividade. De fato é possível também notar quando os sentimentos pelas razões humanas nos são desagradáveis: a inveja, o ciúme, a dor, a desilusão, a desesperança, a maldade. Tudo “demasiadamente humano” presente muitas vezes indisfarçadamente nas atitudes cotidianas, sem as máscaras que a modernidade põe em cada pessoa.
Compreender a vida, a partir da simplicidade das pessoas, em um mundo cada vez mais complexo, eis a grande virtude dos ficcionistas. Eles constroem suas histórias, alimentadas por um imaginário repleto de fatos inusitados e por vezes corriqueiros, prováveis e improváveis, possíveis e impossíveis, reais e irreais, com homens e mulheres que nunca existiram de verdade e ao mesmo tempo surgem nas páginas de um livro tão completamente vivos que parecem reais.
Osair Vasconcelos em seu livro de contos apresenta “As Pequenas Histórias” de sete personagens, porém, em um pequeno universo, inteiro, intenso e abrangente.
No seu primeiro conto aparece Zé Jipe. Um homem que vê a cidade do alto. Não como um deus ou rei no seu trono, nem como um santo ou herói em seu pedestal, entretanto, das nuvens como um sonhador.
Um amor adolescente, uma paixão passageira, um destino abreviado pela força de um sentimento tão comezinho, atingindo e atingido por uma fatalidade, até o insuportável abandono de si mesmo, na procura por um amor perdido até encontrar o inevitável fim: a morte.
É possível encontrar nos contos de Osair Vasconcelos algo mais além de um simples fim da história dos seus personagens. Em “Aquela viagem” quando tudo parece estar consumado, conclui o narrador: “Algo dizia àquele homem que era o melhor a fazer. Seguiu”; também quando a personagem Maria se encontra com a Poeta:  “Aspirou o aroma dos jasmins e saiu. O dia começa.”
Até mesmo na mais cruel reação humana, quando a violência ultrapassa os limites da racionalidade e age com a extrapolação das paixões, haverá ainda em algum lugar um resto, embora que, estranhamente vivido, de um sentimento humano perdido no tempo e no espaço, tal como revelado na história de Adeli: “O filho que nunca soube quem era a mãe teve estranha sensação, entranhada pelo resto da vida, ao saber do crime na Rua do Cajueiro”.
O anjo negro, de falo avantajado, parece estar nos becos das cidades, ou das periferias, onde se reúnem senhores aposentados, jovens em férias e curiosos inativos. Certamente, com outras características anatômicas, mas sempre em algum boteco para bebericar uma pinga ou jogar conversa fora. A idade que tudo abrevia, diminui também as extravagâncias juvenis tanto do anjo como dos Zés Jipe e outros tantos Zés que seguem seus voos para outras paragens, para desvendar mistérios, viver novos amores, ternuras se revelando nos contos deste norte rio-grandense que nos faz mergulhar em suas pequenas e ricas estórias.

Osair Vasconcelos é um ficcionista que vale a pena ter na nossa estante.




*Chumbo Pinheiro é poeta e articulista. Autor de “Alguns livros Potiguares” dentre outras obras.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

ENTREVISTA COM O POETA ORENY JÚNIOR



1-Quais foram suas primeiras leituras?

Vidas Secas, Memórias do Cárcere, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Iracema.

2-Quando você percebeu que queria ser poeta?

Não cronometrei esse tempo, foi espontaneamente, sem aquela linha divisória de ser ou não poeta, sem saber o que era ser poeta.

3-Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?

Dostoiévski, Guimarães Rosa, James Joyce (aprendi a gostar de Joyce, por intermédio de João da Mata, estudioso de Quixote).

4-Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?

Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázovi, Grande Sertão, Veredas.

5-O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?

Escrever, parir as palavras, esse conluio de versos, que me sangram.

6-Um livro inesquecível?

Os Miseráveis

7-Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?

Dostoiévski

8-Qual a sua maior preocupação ao escrever?

A minha preocupação antevê o início da escrita, do poema, do processo, em si, depois, é só fluidez, as aparições e parições, aceitações e rejeições, “nunca mais, nunca mais”, parafraseando Poe. Muitas vezes, eu me preocupo após a escrita, por mais que eu não escreva para agradar, mas a permissividade do olhar do leitor. É uma explicação e compreensão desnecessária. Poesia não se explica, não se compreende. Não existe colonizadores, nem colonos.

9-Fale-nos um pouco do seu livro de estreia “Fórceps”.

Fórceps é um emaranhado de poemas, não selecionados, de forma aleatória, não temático, por mais que se tenha um estilo ou corrente. É uma concepção de um projeto que ansiei por muito tempo. Sempre escrevendo, postando e não focando no livro. Com a chegada à Natal, o projeto foi viabilizado e aquela necessidade de dizer, o tempo é este. Fórceps foi o método pelo qual eu nasci, fui puxado a ferro, um protesto ao nascimento e um sorriso à reclusão, ao meu silêncio, à introspecção. Fórceps é labuta, é o medo ou receio do amanhã, é solidão, saudade da infância perdida, a fórceps.

10-  Quem é o escritor Oreny Júnior?

O poeta Oreny Júnior é um sujeito amigo, brincalhão muitas vezes, introspectivo também, solitário, uma pessoa que confia na outra pessoa, o humano acreditando no humano, independente do sistema ou regime. É um cara chorão, estoico, vibrante, preocupado com o amanhã. É um pai de família protetor da ninhada, querendo blindar os seus, com isso, sofro muito. Na elaboração do projeto Fórceps, sofri muito, querendo que o processo corresse, por não ter mais tempo a ‘perder’. Difícil me auto definir, mas é isso!




sexta-feira, 13 de maio de 2016

ENTREVISTA COM A POETA ADÉLIA DANIELLI


1. Como a literatura entrou em sua vida? Onde, quando e por que tudo começou?
– Acredito que a literatura foi parte essencial na construção do meu jeito de olhar e viver no mundo. Desde criança sempre como uma curiosa e satisfeita leitora, passar a escrever crônicas e pequenos contos foi um caminho meio que natural, o hábito de escrever, (não de produzir literatura) é presente na minha vida desde que fui alfabetizada, aos sete anos por exemplo, ao invés de desenhos, comuns nessa idade, eu escrevia como forma de expressar meus sentimentos, sempre fui uma criança tímida e introspectiva, creio que essas minhas características junto ao gosto por estar sozinha e o estímulo da minha mãe foram determinantes pra esse exercício.
2. “Por Cada Uma” foi sua obra de estreia (em parceria)? Fale-nos um pouco sobre ela, da parceria com Marize Castro e das participantes ilustres do livro.– Sim, o “Por Cada Uma” é na verdade o livro de estreia de nós cinco. Eu, Isabella Maia, Iara de Carvalho, Letícia Torres e Marina Rabelo, recebemos o carinhoso convite da poeta e editora Marize Castro, por quem todas já nutríamos muita admiração, para que participássemos de um projeto com algumas mulheres que andavam produzindo na época e ainda eram inéditas. Na construção desse livro criamos e fortificamos os laços entre nós, e com a Marize, que se tornou uma querida amiga e foi muito presente na elaboração de todo projeto. Nossos encontros certamente ficarão na memória de todas nós.
3. Além da poesia, que outro tipo de arte a atrai?– Literatura em geral, gosto de prosas poéticas, seja em contos, romances ou crônicas. Cinema e música também alimentam meus dias e são determinantes na construção da minha própria arte, embora também consuma outras expressões estas são as mais cotidianas e está tudo atrelado. Como certa vez em uma entrevista ao Antônio Abujanra disse o poeta português Luís Serguilha, “eu não acredito em influências, e sim em contaminações”, eu me contamino com a arte todos os dias.
4. Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
– Sinceramente eu não consumo literatura todo dia, há dias que não leio nada, além de notícias de jornais, ou matérias específicas sobre algo que me interesse, mas não passo um dia sem ouvir música. É uma necessidade.
5. O que lhe dá mais prazer no processo da escrita?Quando eu termino de escrever. (risos)
6. Qual o melhor momento para escrever?Não há um momento específico, meu processo criativo não me permite muita programação, mas é mais tranquilo se estiver em momento de solidão e silêncio, não escrevo ouvindo música, acho essa tarefa dificílima, mesmo que seja música instrumental, porque a música me leva, e quando escrevo tenho que estar completa no momento e no ato.
7. Adélia, fale-nos de “Bruta”, seu mais novo livro de poemas prestes a ser lançado.– Bruta é um livro que considero muito forte, assim como o título sugere. Ele é o resultado de uma série de poesias que foram escritas entre 2013 e 2015 em uma fase bem intensa de sentimentos, situações e escritas. A compilação que resultou em Bruta, são apenas algumas dessa época bastante fértil e que se pode identificar muita solidão, angústia, mas também muito encanto pelo processo de produção explicitado na metalinguagem sempre presente, e uma clara evolução no meu empoderamento feminino e a minha busca pela vivência da sororidade.
8. Existem mudanças significativas na poesia de Adélia Danielli se comparamos os poemas de “Por Cada Uma” com os de “Bruta”?– Sim, absolutamente. Porque eu própria não sou a mesma, não havia como a poesia continuar a mesma também. Há obviamente uma coisa que as liga, que não sei especificar o que é, embora desconfie que possa ser isso de continuar escrevendo pra me entender, porque acabo me percebendo melhor dessa forma.
9. E quais os planos literários para o futuro?Ainda não sei. Sei apenas que se me for permitido pela vida continuarei escrevendo. Penso em um livro de contos, como um desafio pessoal, mas sei que a poesia estará sempre comigo.
10. Quem é a poetisa Adélia Danielli?Uma mulher que vê na poesia o sentido e a seta à seguir. Que escreve porque precisa, e que é grata por isso.

sábado, 5 de março de 2016

Artigo.

Reflexões, ruminações.

Por Chumbo Pinheiro.



De quem são as vozes ruminantes e ruminadas? Uma primeira resposta que nos dá é o poeta Alberto Bresciani: “Em Ruminar, David de Medeiros Leite dá voz aos corpos simultaneamente magníficos e frágeis de bovinos e a seus guardiões – exercício ousado e reorganizador de memórias e percepções do mundo,...”. Por outro lado, o professor Alfredo Pérez de Alencart adverte: “que as aparências não te confundam, pois tudo aquilo que se entende pode ser possível de comparação mais além do que teus olhos vislumbram: os homens e suas condutas não esquecidas, as que transcendem fronteiras...”.
Estas definições apresentam pelo menos dois distintos e importantes aspectos: no primeiro, identifica-se o exercício do poeta na execução da palavra que verbaliza a voz não humana, a voz dos ruminantes; por outro lado a voz do vaqueiro, do homem que expõe em palavras: pensamentos, sentimentos e desejos.
No segundo aspecto mostra-se um entrelaçamento destas duas vozes, ruminantes e guardiões, vacas e bois e vaqueiros, que se deve ter o cuidado de não confundi-las, tendo em vista, seu entrosamento, sua convivência e partilha da vida, que chegam a se comparar.
Estas aproximações entre o ser humano e o ser não humano povoam a literatura,  revelando sempre ou quase sempre a necessidade de profundas reflexões sobre a convivência humana na sociedade. David de Medeiros Leite traz em Ruminar estas reflexões.
Assim, somos levados a pensar: enquanto  se arrasta o carro de boi: “O ruído também/nos serve/de contra peso/ao fardo arrastado.” (Ruminar III). Retirando do peso do trabalho a dor e transformando em som que apazigua “o chocalho,/saibam,/é instrumento de comunicação/e nos apazigua em seu colo sonante.” (São Sons).
Ao lidar com o peso do trabalho reflete o vaqueiro: “A encouraçada lida/tece a vida/ (sem fina filosofia)/ amalgamando:/jornadas/agruras/pausas/e sonhos...”. (Pausa).
O vaqueiro tão nordestino, tão brasileiro é universalizado. São as relações humanas e sociais que o poeta revela: “Festa no alpendre/dança e alegria/colóquio e cantoria.”... ”Em meio a tanta algaravia,/olho para o estábulo/e tudo é calmaria...”. (Contraste). E já havia questionado o professor Alfred Pérez Alencart “Por acaso não é autenticamente “revolucionário” o poema Despertar?” Chamando a atenção do leitor não só para as mulheres trabalhadoras que logo cedo deixam de amamentar para voltarem ao trabalho, como para as desigualdades sociais que de forma quase imperceptível aparecem em alguns poemas como Destino : “Na pradaria,/entre escaramuças e carreiras,/brincam e coexistem/-em (quase) confraria-/os filhos do vaqueiro e nossos filhos.//... O povir,/para ambos,/será leve?”. Há nestes poemas o entrosamento e a comparação, mas se mantém a separação entre a voz do vaqueiro e a voz dos bois, e afirma o poeta dando voz ao  vaqueiro: “ Também os escuto/decodificando seus humores,/desgostos e contemplares./Sou capaz de decifrar/o olhar bovino/desde menino.” (Sujeitos).
David de Medeiros Leite resgata dois grandes símbolos da cultura nordestina, potiguar: o gado e o vaqueiro. Através de uma poesia profunda em suas reflexões e bela em sua composição.



Chumbo Pinheiro é poeta e articulista. Autor de Alguns livros Potiguares e outras obras.