terça-feira, 25 de novembro de 2014

Artigo *


DAMIÃO NOBRE E SUA TRILHA SONORA LITERÁRIA

Antes de qualquer coisa, música.
Paul Verlaine

Se existe um gênero literário que pode ser classificado quase que exclusivamente como de origem brasileira é a crônica. Deixando de lado o aspecto de erudição do ensaio ou a objetividade do artigo, a crônica nos relata  assuntos cotidianos, principalmente de fatos mais pessoais, relacionando-os a contextos característicos do nosso país, como politica, futebol, carnaval e música. Não é de admirar que, no Brasil, tenhamos  tantos cronistas ilustres como Machado de Assis,  Carlos Drummond de Andrade,  Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Luís Fernando Verissimo e  outros grandes nomes.
No Rio Grande do Norte, na seara da crônica, há uma tradição relativamente nova, se comparada, por exemplo, à poesia. Temos excelentes cronistas, como Newton Navarro, Berilo Wanderley, Dorian Jorge Freire, Manoel Onofre Jr, Vicente Serejo, Clotilde Tavares, Sanderson Negreiros e Woden Madruga, este último, um ícone da crônica potiguar, é o único, dos escritores citados, que não publicou em livro suas contempláveis crônicas.
Nos últimos anos tem surgido uma nova safra de bons livros de crônicas em terras potiguares, como as Cartas de Salamanca de David de Medeiros Leite, Guriatãs e Muçambês de Marcos Medeiros, Verão Veraneio de Carlos Fialho e Uma Garça no Asfalto de Clauder Arcanjo, são obras que fazem jus a essa tradição.
Agora, o escritor Damião Nobre publica seu mais novo livro de crônicas, que mantém a nossa tradição de qualidade nessa vertente literária. Radiola – Conversa de Música, publicado pela Editora Sarau das Letras é um livro simplesmente agradável , o terceiro do autor, que anteriormente já havia publicado Conversa de Médico, e Conversa de Mãe, com  crônicas conforme o titulo sugere.
Voltando à especificidade da crônica, entendemos que ela é geralmente, um texto  para ser veiculado em jornais e revistas. Assim já se lhe determina vida curta; em alguns casos são datadas, em outros não; muitas permanecem atemporais, como é o caso das crônicas do livro Radiola – Conversa de Música. Percebemos, que há ocasiões  em que a crônica  é mais pessoal, às vezes, poética, às vezes, didática, às vezes, memorialística, bem-humorada, satírica ou irônica e, claro, sempre relacionada a fatos cotidianos. Esse gênero, que se afirmou no Brasil através dos jornais, hoje é difundido sobretudo em livros, blogs  e sites pela internet. Os grandes veículos continuam recorrendo à crônica para um contato mais próximo do leitor.
Existe uma linha muito tênue entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após  acercar-se dos fatos cotidianos, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como, humor, poesia, ficção, fantasia e criticismo, elementos  esses que os textos essencialmente informativos não contêm.
Com base nisso, podemos dizer que Radiola–Conversa de Música situa-se entre o jornalismo e a literatura, e o escritor Damião Nobre, na qualidade de bom cronista, pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia a dia, nesse caso mais especificamente, quando a temática é a música, assunto que ele domina. Damião Nobre dialoga com o leitor, fazendo jus ao subtítulo do seu livro, Conversa de Música. Isso faz com que a sua crônica desperte uma ampla gama de leitores atraídos pelo tema. Damião utiliza linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, e se agrade de uma temática tão deleitosa.
Após a leitura do livro não temos duvida: Damião Nobre tem vocação para a crônica. Depois de Conversa de Medico e Conversa de Mãe, seus curtos e sintéticos textos  têm tudo aquilo que se pode esperar de uma excelente crônica.
O livro Radiola enfeixa textos que o autor publicou quando escrevia para a revista Papangu, com acréscimo de alguns que circularam em outros veículos e outra inédita. O livro é totalmente agradável, e o leitor que o abrir corre o sério risco de não querer parar a leitura enquanto não terminar de ler. São inúmeras as crônicas que merecem os mais altos elogios, como “Pobre música potiguar brasileira”, em que o autor discorre sobre os nossos poucos músicos que tiveram ascensão nacional. Em outra discorre sobre apelidos e pseudônimos usados na música. Por exemplo, Julinho de Adelaide. Você sabia que este foi um dos pseudônimos usados por Chico Buarque para driblar a censura?
Damião Nobre nos dá uma aula de cultura musical, com dados e informações muito relevantes; é nítido seu profundo conhecimento da área musical nas mais variadas vertentes, trata de assuntos desde Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso e Elis Regina, até Lindomar Castilho, Waldick Soriano, Altemar Dutra e Fernando Mendes, cantores considerados bregas, por sinal, termo que tem sua origem também explicada em outra crônica. No final, um texto emocionante sobre  importante compositor e musico potiguar, Elino Julião, cuja vida daria um roteiro de filme  hollywoodiano.
Radiola, é um dos melhores livros publicados, este ano, no Rio Grande do Norte, vale a pena conferir.
Não foi à toa que o filósofo Friedrich Nietzsche  disse em uma das suas obras que  ‘”a vida sem música seria um erro”. Reafirmo complementando; sem literatura, também.



*Thiago Gonzaga, pesquisador da literatura potiguar.

Lançamento.



UM LIVRO ESSENCIAL *

Graças à sensibilidade da professora e escritora Conceição Flores, que reuniu um grupo de alunos em prol de um projeto inédito no Estado, foi lançado o primeiro dicionário de escritores potiguares da nossa história. Iniciativa louvável e convenhamos, extremamente desafiadora.  Trabalhos dessa natureza tendem a sofrer críticas diversas, na grande maioria das vezes por omitir alguns escritores.  Na verdade, já nascem desatualizados, devido a grande quantidade de autores que surgem a todo momento. Mas nada  impede nem tira o brilho e a importância da obra.
O livro tem o intuito de deixar registrada a biografia de autores que, nascidos ou não no Rio Grande do Norte, contribuíram para difusão da nossa literatura.  É uma excelente fonte de consulta e informação e grande aliado para estudantes e pesquisadores. Com inúmeras informações bibliográficas torna-se um instrumento  eficaz para as nossas letras e junta-se a uns tantos  livros essenciais para se conhecer a literatura potiguar.
Conceição Flores é doutora em educação e, embora não tenha nascido no Rio Grande do Norte, (natural dos Açores) é uma importante defensora da nossa literatura, inclusive leciona a disciplina Literatura do Rio Grande do Norte na Universidade Potiguar, promovendo encontros e debates entre alunos e a comunidade literária.
Seu livro, registrando mais de 500 nomes da nossa literatura, de Nísia Floresta até a contemporaneidade, constitui-se obra de referência indispensável, que dá uma enorme contribuição para a nossa cultura literária.

 *Thiago Gonzaga, pesquisador da literatura potiguar.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Um livro histórico *



“Admiro muito aqueles que dedicam suas vidas à arte,
mas admiro mais aqueles que dedicam sua arte à vida”
Augusto Boal

Certa vez, o cantor e compositor Raul Seixas disse em uma das suas canções que a arma dele era uma guitarra na mão. Ficou evidente que um dos nossos mais ilustres músicos usava sua arte também como instrumento de ação social. Ou seja, ele  era um artista engajado. Retomo esse assunto após ler o novo trabalho da jovem poetisa Drika Duarte, que demonstra uma preocupação com o social, numa causa engajada, mais especificamente a literatura afrodescendente.
Assim como em todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que  se origina. Não há escritor completamente indiferente à realidade, pois, de alguma forma, todos participam dos problemas da sociedade, e tratar do tema afro, sobretudo valorizando e resgatando seus aspectos culturais é extremamente relevante para preservação e valorização da cultura afrobrasileira, inclusive em solo potiguar.
Durante alguns séculos, a África cedeu parte de suas  populações para estabelecimento e manutenção de  grandes formações escravistas no novo mundo, sobretudo no Brasil. Para o Rio Grande do Norte também vieram escravos, ainda que em menor número. Apesar disto e do escravo negro africano ter-se transformado no verdadeiro sustentáculo de toda a sociedade brasileira até o final do século XIX, pouco se tem estudado, valorizado, até o presente, a história, a cultura e a literatura das formações sociais originárias da África.
A literatura brasileira, inclusive a potiguar, praticamente desconhece o negro  como elemento determinante. Não é de admirar tão pouca importância dada ao tema ao longo dos anos; só nas ultimas décadas tem surgido um maior interesse pelo estudo, pesquisa e divulgação da temática.
A necessidade de manter vivas as raízes afros  é de grande relevância  para a nossa cultura, inclusive para melhor compreensão do nosso passado. O escravo – nunca é demais repetir - foi um verdadeiro pilar da organização socio-econômica que regeu, por três séculos, a sociedade brasileira. Foi também o escravo o principal protagonista das lutas sociais que agitaram a colônia e o império. Por estas e outras razões, a cultura e a própria história do Brasil contêm profundas raízes no mundo africano.
Contrapondo-se à falta de tradição, pelo menos em solo potiguar, a poetisa Drika Duarte, apresenta uma obra, em que procura valorizar, resgatar valores, culturas e tradições afros. Desta forma, seu livro representa uma importante contribuição para divulgação e fortalecimento da cultura afro, fornecendo um diversificado e amplo painel. Em outras palavras, fica evidente que o instrumento de luta da poetisa é sua poesia.


**Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Artigo.




O fantástico mundo da escritora Carol Vasconcelos*


Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia.
E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.
William Shakespeare


Depois de ler “A Filha de Gaia” da escritora potiguar Carol Vasconcelos, volto a relembrar uma velha frase de Freud, segundo a qual os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência, A jovem ficcionista acabou de publicar seu mais novo livro, um romance onde os seres mágicos e o universo fantástico são personagens principais.
A obra começa de forma bastante interessante; no prólogo, nos deparamos, com uma espécie de carta aos humanos, questionadora e reflexiva, enviada pelo personagem Ellyllon. Nas páginas seguintes, acompanhamos a comovente história da jovem Aurora, que, com três anos de idade foi deixada na porta de um orfanato, e enquanto ia crescendo, observava  a destruição da natureza no mundo, o derretimento das geleiras, queimadas, devastação das florestas, inclusive a amazônica, propriedade dos Estados Unidos, em um futuro próximo.
Aurora  tinha características diferentes  das outras crianças, via coisas que as outras não podiam ver, pequeninas criaturas. Aurora cresce notando que não faz parte deste mundo, sentindo falta de alguma coisa, algum lugar, reconhecido apenas em seus sonhos. Certo dia, de céu cinza, pois  já não havia mais cor no planeta,  A jovem vai a uma biblioteca, e conversa com a nova bibliotecária,  e procurar entender o motivo porque  ela era a única a conhecer aquelas criaturas que apareciam em  seu mundo, e descobre então, ao ver as orelhas da bibliotecária, que não está sozinha. A partir daí, consegue algumas explicações. Arya, bibliotecária do orfanato, lhe diz que existem várias outras criaturas que os seres humanos não podem ver, mas ela, A Filha de Gaia, pode. Aurora é a criança vinda à terra para manter o equilíbrio e a ordem entre o planeta Terra e o Mundo da Magia.
A história fantástica e instigante continua pelo universo da fantasia, e o leitor mais atento vai observar que por trás de uma temática maravilhosa, também há um pretexto para engajamento, ou seja, a preocupação com a natureza, com  o bem-estar da  humanidade. A cada capitulo  o livro ganha criatividade e força, e conta com um final muito bem elaborado, onde o mundo dos humanos passa por uma reconstrução, tudo tendo como fonte a imaginação da escritora.
É notório que a literatura fantástica tornou-se, especialmente nas últimas décadas do século XX, e início do XXI, uma importante vertente da literatura, espécie de fenômeno mundial,  que tem atraído principalmente os jovens. No Rio Grande do Norte, não tinha muita visibilidade essa vertente literária, mas, nos últimos anos, vêm surgindo novos nomes. Apenas para citar uma turma jovem: Monalisa Silvério, Roniere Lopes, Rafael Marques, e a própria Carol Vasconcelos, que lançou em 2010 “Contos do Mundo Mágico”.
A obra de Carol Vasconcelos, está na chamada linha da Fantasia, gênero que usa a magia e outras características sobrenaturais como elementos principais do enredo, da temática e ou da construção da obra Os trabalhos nesta área variam amplamente, a partir da teoria estruturalista de Todorov, que enfatiza o fantástico como um espaço liminar para se trabalhar sobre as conexões históricas e literárias entre o medievalismo e a cultura popular. Por ser tão rico, o gênero literário invadiu também o cinema através de filmes que usam magia, elementos sobrenaturais e personagens fabulosos em seu contexto. “A Filha de Gaia” é mais uma prova de que estamos antenados com  o que  acontece no universo literário.

*Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.

JUNIOR DALBERTO E SEUS POEMAS DE LEVEZA INFINITA*


 Com que combinações se faz um poema? Palavras, musicalidade, ritmo, assunto. No mais novo livro do escritor Junior Dalberto, “Leveza Infinita”, o autor nos oferece um convite a mergulharmos no que há de mais variado no universo poético, numa espécie de total experimentação.
Com  o seu eu lírico,  Dalberto concentra significados diversos: em cada palavra  um sentido novo , um peso, ou melhor, uma leveza especifica. Seus versos viajam no universo das expressões, e em alguns poemas lembram os concretistas (poesia de vanguarda experimental). O cotidiano se desconstrói e seus elementos transformam-se num novo sentimento a cada novo poema. O jogo de palavras e imagens é constante, há um prazer no dizer, no cantar, no versar do poeta, em uma síntese pontuada por cortes, experimentações, ousadia, sempre em busca de surpreender o leitor.
Eis um livro que vale a pena conferir, afinal só se conhece a poesia lendo poesia. Devemos ressaltar o  trabalho gráfico,  que o deixa leve, atrativo e agradável. Mais um bom lançamento da CJA Edições.

*Thiago Gonzaga,  pesquisador da literatura potiguar.